Porque é que eu tinha, ainda, o pé?
Os outros... não.
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Começou tudo com o bombardeamento do parlamento de Sarajevo e eu, no jardim em frente, com cerca de 15 mutilados em estado de choque.
Das próprias camisas, rasguei pedaços de tecido para, com pauzinhos que vagamente apanhava pelo chão, fazer torniquetes. Interrompi-me várias vezes aos gritos para os AV5 blindados da ONU que passavam na rua. Eles não paravam. Desde a minha chegada que eu sabia que não recolhiam civis.
Parou o novo blindado da BBC e os camaradas dividiram sete dos oito feridos de morte comigo.
Até que parou um bósnio corajoso, numa camioneta de caixa aberta. Já não ajudei a carregar os feridos, estava exausta. Fui depositada com eles no Hospital de Kosovo, em Sarajevo. Mas o sangue não era meu. Eu não tinha pauzinho em nenhum tornozelo, pulso ou antebraço. Chegando, desajudei. Fumei uns 30 cigarros enquanto esperei a discussão com o chefe das urgências...
"- Aquela mulher vai ficar sem os dois braços e um pé....porque lhe corta o outro? E aquela outra, amputa-lhe um terceiro membro?!"
E ele, agastado, pedia-me mais um cigarro e respondia com uma pergunta: "deixo morrer as dezenas que estão a esvair-se em sangue, à minha espera?"
O Pinto Amaral e o Dinis chegaram para a reportagem na morgue (ao lado das urgências) e levaram-me com eles.
À chegada à televisão, comprei um litro de água por 20 dólares. A água mais cara jamais comprada! Venderam-ma num garrafão de plástico serrado ao meio. Levei-a, preciosamente, para o duche da cantina da TV bósnia, onde não havia água há muito tempo. Não sabia se havia de tirar a camisa e esfregar o sangue ou se havia de passar a água por cima. Era uma camisa cor de estanho em seda selvagem (usava-a sob o colete e o casaco militarista), secaria rapidamente e a cor ficaria esbatida...por cima, o colete de mil bolsos que não lavaria. Pendurei-o no varão da cortina, para dar sorte, meio teso meio triste e tudo menos "consorte"...
Depois de despejar água por cima da cabeça, percebi que tinha de tirar a camisa e esfregá-la com algum sabão do corpo. Desisti do sabão e esfreguei a camisa enquanto que, com o pé, "ajudava" a água ensanguentada a chegar ao ralo. Olhei os meus dedos do pé...dedos. Porque é que eu tinha escapado com dedos? Com pé? E os outros a quem estavam a cortar os tendões....ainda?! As explosões abalavam o edifício e já não havia mais ninguém a mandar-me para a cave, para o abrigo.
Depois da última gota do precioso líquido, vesti o colete, agarrei na camisa e no material e botas, para recolher ao escritório da equipa espanhola que me recolheu na Tv bósnia. Não estava ninguém. Estalavam ecos que abalavam as paredes. Encolhi-me num canto para adormecer, nesse dia em que perdera o medo e me aproximara da morte.
Evidentemente, não dormi. Fui para as escadas entre o primeiro andar e a entrada. Estavam lá dois técnicos bósnios, a cantar. Ofereceram-me o grog deles e eu, que não conseguia chorar nem agradecer, cantei-lhes "Os teus olhos, negros negros, são gentios, são gentios da Guiné".
A resposta à minha questão filosófica tardou, mas foi violenta...
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