Era, no entanto, uma zona que todos os beligerantes tinham prometido respeitar.
Uns dias depois, percebi porque é que ninguém respeitava.
Quando os jornalistas, escritores, e fixers se retiravam, os mais estranhos notívagos subiam aos andares mais altos e atiravam, do hotel, sobre os diferentes alvos.
Nunca percebi quem é que nos vendia: a raia miúda da receção ou alguma ONG... mas os mercenários entravam e o fogo começava. Nós só ouvíamos as granadas que nos explodiam nos quartos, em resposta. Eu dormia na banheira, que era pequena mas, ao menos, o quarto de banho ainda tinha uma parede e estava uns metros afastado da janela para o exterior.
Incapaz de conciliar o sono, fui à despedida dos jornalistas italianos que partiam de Sarajevo no dia seguinte. Éramos um grupo jeitoso, risonho, apesar do cansaço dos que se iam embora e da minha ansiedade em querer saber como desenvencilhar-me, como partilhar um carro, um motorista, inscrever-me na "international pool" (todos contribuíamos e servíamo-nos das imagens e sons)...
Eis que o jovem escritor grego, George, aparece aos gritos "Maria, Maria! Explodiram com o teu quarto!!!"
Acabara de chegar e começavam os mal entendidos. "- Não me chames Maria, George, Maria João é um nome composto, como Maria José, Maria Juan, Johnny...a propósito, vai um Johnny Walker?"
"- Não estás a perceber - ripostava o infeliz - explodiu uma granada ao meu lado, estou no quarto a seguir, anda ver, traz a chave!!!"
Tremia muito, o pobre do rapaz. Fomos todos, em excursão, atrás dele. Realmente não havia nada direito e até a tela que devia cobrir integralmente os vidros estava no chão da entrada, mas a granada não explodira ali. Fomos então ao quarto contíguo, imediatamente antes do meu, que tinha a porta entreaberta...e lá estava a explicação: a granada de obus entrara junto à parede que separava os quartos, mas não no lado interior da minha.
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Os dois quartos ficaram em muito mau estado e achei que era um belíssimo aviso para terminar as despedidas e continuar a noite na banheira.
Mesmo assim, uns dias depois mudei-me para um escritório da tv bósnia a convite de um extraordinário grupo ibérico.
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