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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Heróis Sem Tempo - R.I.P., Cristophe Midol-Monnet

Somos uma espécie em vias de extinção: ficámos com a fama de pertencer a um tal Quarto Poder. Fugimos tanto, para não aceitar o dinheiro sujo da trama, que devemos dinheiro à banca, morremos de stress, mas, antes, sonhamos como os nossos pais sonharam para os seus filhos.
Sou da geração da revolução mas aprendi que a minha filha também.
Cobri guerras e continuo a relatar todas as etapas sangrentas de todas as revoluções.
E nem sequer sou jornalista por vocação. Fui talhada para jurista, mas a utopia não tem lugar na lei que aprendi....fugi para um mundo global onde ainda continuo à procura da verdade e de sentir que não me perdi, mas sim o mundo que ri de si mesmo num fundo sem espaço para o riso.
Fui poeta da guerra. Fotografei-a, sem perceber nada de fotografia. Aliás:fui perceber a guerra e despercebi-a.
Continuo a ir ao funeral dos meus companheiros de profissão e aos dos camaradas de guerra.
Há um milagre qualquer que me prende a este palco da vida.
foto de Susete Sampaio

Hoje, o milagre veio de Christophe, o europeísta com quem nunca concordei: mas um gentleman é um gentleman, em qualquer Pensão da Boavista, como diria a nossa melhor voz: Fermando  Pereira, especialista eficaz em Riso. Nós exageramos, elevamos o absurdo ao público, quando a verdade não chega.


terça-feira, 17 de abril de 2012

A garagem

Por mero acaso, dei com a garagem de uns Heróis sem Tempo que faziam o indizível: ir, debaixo de fogo, às franjas da cidade de Sarajevo, procurar cadáveres e feridos graves. As carrinhas em que o faziam estavam pintadas com umas toscas cruzes e uns crescentes vermelhos (mas a organização Cruz Vermelha/Crescente Vermelho não tinha nada a ver com isto) e os motoristas - pelo menos aquele com quem falei e na carrinha do qual entrei - deviam alimentar-se a adrenalina e tabaco. Pelo chão havia uns recipientes com um líquido de cor duvidosa e uma esfregona já negra...
Como todos, naquela guerra, o homem de serviço era rádio-amador e assim sabia onde socorrer quem necessitava, nos piores momentos. Não fazia um torniquete, não fazia talas, conduzia. Colocava as pessoas dentro da viatura e conduzia o melhor e mais rápido que podia.
Naquele entardecer estava sozinho, as baixas neste conhecido contingente de "suicidas" tinha levado os outros. Não havia macas, nem oxigénio, nem médicos, nem enfermeiros. O cidadão ia "empilhar" o mais que pudesse dentro do veículo, num voo rasteirinho, levava a carga ao hospital e tentava chegar vivo à garagem. Quantos mais conseguisse transportar, quanto mais depressa os depositasse nas urgências do Kosova, mais depressa entraria na garagem para recomeçar o ciclo infernal.
Recebeu instuções enquanto falava comigo e empurrou-me para eu sair. Mostrei-lhe a câmara, implorei-lhe que me levasse para fotografar e gravar mas ele, impertubável, pôs-me fora da carrinha e sublinhou o perigo. Era algo que tinha de fazer sozinho.
Ainda bem que, naquele dia, alguém me disse NÃO.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O francês que, em Saravejo, conhecia o Mendonça do Dakar



O jovem francês, do qual tenho o nome escrito nos diários de guerra, mas não me lembro, chegou a Sarajevo com um jipe blindado para entregar à BBC. Trazia-o da Alemanha e tinha de regressar com o velho jipe inglês esburacado, não blindado, que tinha estado ao uso até então.
Nessa noite em que chegou, juntou-se a nós na sala de jantar do Holiday Inn de Sarajevo, na pausa das explosões da noite, que servia para programar as saídas do dia seguinte e partilhar viaturas e outros meios.



Quando percebeu que eu era portuguesa perguntou-me se conhecia o Zé, um motard genial com quem tinha feito o Dakar e que, depois de assaltado, foi num camião de boleia e fazia reportagens para um jornal diário a dizer bem dos ladrões tuaregues. Essa era fácil! Um dos meus Heróis sem Tempo? Claro que era o Mendonça, que estoirou com os joelhos em vários Dakar (antes de passar ao parapente) e sempre achou que os tuaregues tinham sido muito simpáticos em deixar-lhe uma parabólica e um telefone. Foi o início de uma bela que o "Público" aproveitou, fazendo do aventureiro o escriba de serviço.
E agora, em Sarajevo, eu conhecia outro herói da mesma craveira...
Acabei por partir de Sarajevo com ele, muito tempo depois, no jipe esburacado da BBC. Depois das posições dos chetnick, tínhamos mais umas balas crivadas no tablier. Quando passámos o último check point, fotografámo-nos mutuamente, para provarmos a nós mesmos que estávamos inteiros, para sentirmos que estávamos vivos. Ele deixou-me em Split e apanhei uma boleia militar para Zagreb. Há quase duas décadas.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Sarajevo

No dia 6 de abril de há 20 anos teve início o cerco de Sarajevo. Eu podia apenas vestir a t-shirt comprada que afirma "I survived Sarajevo... twice". Mas não. Eu estive lá. E não tenho grandes sobressaltos ao revisualizar imagens com som das explosões, não. O meu problema sempre foi com os iatos, o silêncio. Quatro cadáveres de crianças apanhadas por uma granada de obus quando brincavam num túnel. Por exemplo. A pausa do médico a quem dei cigarros e perguntei porque não salvava um pé e ia amputar três membros a uma idosa. O escândalo no olhar dele: "e deixo morrer os outros mutilados para salvar o pé da velha?" Silêncio. O meu, muito envergonhado.
Este fim de semana vamos encontrar-nos, os sobrevivos de Sarajevo, repórteres de guerra e escritores, atores da defesa da cultura durante o atroz sacrifício do bem comum... vamos lembrar o incêndio na biblioteca milenar, o estatelar das granadas nos muros de meio metro em frente ao parlamento e os torniquetes que éramos obrigados a fazer das camisas rasgadas enquanto os carros da UNPROFOR passavem sem parar como gente doida - "a ONU não permite o socorro a civis, neste mandato"...ainda ecoa na minha cabeça. E os bósnios atreviam-se a sair de casa, durante os bombardeamentos, e a trazer veículos para levarmos aqueles corpos meio desfeitos ao Kosova Hospital. Os médicos, enfermeiros e voluntários, eram alvejados quando nos ajudavam a retirar aquela gente dos atrelados. E a nossa ausência era fatalmente justificada com "menos ou mais um jornalista"! Neste caso tenho de admitir na minha categoria dos Heróis sem Tempo todos os civis de Sarajevo, de todas as etnias, que ajudaram a salvar vidas. Bem Hajam.
Por mim, os anos de sofrimento por ainda ter pernas, levaram-me quase a perder uma. Até que compreendi o meu dever de testemunho e a minha enorme dívida para com os que me desviaram da minha morte ou morreram em vez de mim, com as balas e granadas que me foram destinadas. Gracias, Ortega, Martinez. Salam Alekum, Ibhraim. Arigato, Kori. Obrigada, Capitão Santana e Pinto Amaral... e tantos outros. E obrigada a todos os atores que levaram à cena durante o cerco a peça "Abrigo e Resistência" e me convidaram para sobreviver com eles durante dois dias. Gracias a La Vida, como diria Joan Baez.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Iura - Heróis Sem Tempo




Como te deu
essa súbita ânsia
de incertezas
farto que estavas
de inevitabilidades
e tristezas?
Imagino a solidão
o grito
sos
sos
sos... como na Rússia....
"sos hopital".
Estas bestas só conhecem o S.O.S.
E as férias de Natal
bem coladinhas às greves
e a outras de neve e carnaval.
SOS, irmão, vamos falar de sobrevivência.
Um dia, depois do meu coma
ofereceste-me um boné de almirante
... era uma vez a Vida, Iura, a vida.
Nem que escolhas um turbante ou a cabeça nua...
entoa uma balada
canta e tagarela
vive connosco e com os anjos
amara e amarra bem a vida nela
e nós continuamos a ouvir-te pelos séculos fora....
a Rússia é um coração grande demais
e é mau que chore
... é mau que sofra.






Adenda de 22 de Outubro: Iura morreu.
1967-2010
foto de Ricardo Figueira

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Heróis sem Tempo - Mário Bettencourt Resendes

O jornalista Mário Bettencourt Resendes era também um comentador. Homenageio-o lembrando que Stéphane Taponier e Hervé Ghesquière são reféns dos talibãs há 216 dias. Foram raptados no dia 29 de Dezembro, assim como os seus três camaradas de trabalho afegãos.
Faziam uma reportagem para a France 3, para o programa "Pièces à conviction".

Assim, este post, para honrar a memória de Bettencourt Resendes, honra também todos os que sacrificam tudo em prol da liberdade de informação e da informação tout court assim como os que promovem a liberdade nos Media.

Graças a chefes de redacção e directores como Mário Bettencourt Resendes, pude (decerto como outros jornalistas no país e no mundo) partir para a guerra sem quaisquer outras credenciais que o lirismo, a utopia e uma vontade de ferro.
Mário Rettencourt Resendes não só acreditou em mim, na altura, uma miúda em termos profissionais, como montou uma operação com outros jornalistas em Belgrado e em Paris para cobrir a insensatez do Conflito nos Balcãs. Eu era uma outsider.

Não duvidou em dar-me manchetes e centrais do DN, que partilhei com jornalistas credenciados que, ainda hoje, não sabem a que ponto os admiro.

Sublinho: não vinha de lado nenhum, exceptuando uma rádio não homologada, vulgo pirata (com óptima direcção de um grande jornalista), o CENJOR (grande Marquês de Almeida) , a Radiogeste (querido Henrique Garcia) e Lusa.
Mas o Mário Bettencourt Resendes (DN) e o Jorge Morais (do saudoso Tal e Qual) fizeram as credenciais e carimbaram-nas para que eu passasse os check points.

Eles, simplesmente, assinaram por baixo e publicitaram, tão positivamente que é impossível descrever, a aposta numa jovem jornalista que queria decifrar o ilogismo da guerra.
A loucura dos guerreiros continua indecifrável, mas os jornalistas continuam a fazer a ponte entre os abusos silenciados aos povos e a consciencialização dos membros da comunidade internacional em organizações ou Estados com algum poder.




Mário Bettencourt Resendes tinha apenas 58 anos de idade, mas travou muitas batalhas e foi um vencedor por natureza. Tranquilamente, lá deve estar sentado numa núvem a sorrir como um menino "corisco mal-amanhado lá da ilha dos japoneses".

A Naná (Natália Correia) lá há-de estar a arrancar-lhe as asas... Bem Hajam os Poetas e os Jornalistas...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Heróis sem Tempo - Michael Reichmann

Michael REICHMANN era para ter vindo trabalhar às 9, como fazia nos últimos quatro anos. A família telefonou de Bruxelas para a Euronews a anunciar oficilamente a morte por paragem cardíaca.... no hotel em que ficam os jornalistas "pigistes" (colaboradores independentes) que trabalham connosco, em Lyon. Antes, quando viram que ele não chegava para trabalhar, procuraram-no.
Tinha os olhos mais azuis e galanteadores da redacção...era a gentileza em pessoa. Mas "engulia o stress" para manter o sorriso.
É o segundo jornalista da equipa alemã a morrer naquele hotel, do mesmo modo, antes de vir trabalhar. A Rosie, da minha equipa, também alemã, é uma sobrevivente que já tem três cateteres no coração.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Heróis Sem Tempo - Jorge Ferreira

O ciberamigo Jorge Ferreira, recto, competente e com todas as qualidades humanas que a sociedade bem ficou a conhecer, publogou (três dias antes de morrer, no sábado 21) no seu blog Tomar Partido

7888) AGUENTAR
Não está escrito em lado nenhum que o biorritmo só cresce. Também desce. Hoje é o caso. Pronto. É questão de esperar. E recomeçar. Com a fotografia nova que recebi no telemóvel e que apaguei com o meu providencial jeito para as tecnologias. Vem outra a caminho, para a montanha russa recomeçar a subida até aos céus infinitos da eternidade.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Heróis Sem Tempo - Anabela Vaz



A jornalista Anabela Vaz, que nos deixou em choque no dia 14 de Outubro, com a sua repentina partida aos 42 anos de idade, e quando tudo fazia augurar um lindíssimo futuro com a recém-criada AVídeo, vai ser sempre a melhor das jornalistas no coração dos camaradas de trabalho.
No bom jornalismo é como na tropa: uma vez camarada, toda a vida camarada.
Por isso não gostei de, nalgumas notícias, chamarem-lhe ex-jornalista, por ela ter tido o carácter de uma leoa e se ter retirado da profissão oficialmente (devido a terceiros e a um mal entendido). Porque o seu olhar clínico continuava a ser o de uma jornalista, filmasse ou fotograsse o que filmasse ou fotografasse.
Quando lhe telefonei a perguntar se queria que eu a credenciasse com a minha equipa da euronews no Six Days Enduro ela respondeu-me que sim, que a credenciasse porque "estava doente, não estava morta".
Assim, aquilo que me participaram depois de uma jornada de enduro foi isso: ela foi, apressadamente, para algum lugar onde era mais precisa. Disseram-me outra coisa, fiquei em choque, chorei, bebi, cantei e chorei. Conclui aquilo que disse: que ela só podia mesmo ter ido em viagem....mais celeste do que as habituais.
Porque as pessoas que amamos sentam-se nas núvens para nos acenar quando pensamos nisso. Não é gente que morra. É gente que protagoniza aquilo que apenas continuamos neste caminho.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Confraria do Arroz entroniza Zé Carvalho

A CONFRARIA DO ARROZ E DO MAR entronizou José Carvalho a título póstumo; todos o conheciam ou por Zé do Búzio ou por Zé Gémeo. A sua irmã Júlia Curado teve o cuidado de partilhar connosco o que foi dito na cerimónia, o que muito agradecemos com amizade e reconhecimento (infelizmente não estou a conseguir publicar a foto que a Júlia enviou com o texto; vai uma de arquivo).





JOSÉ HENRIQUE MENDES RODRIGUES DE CARVALHO nasceu há 53 anos na cidade da Figueira da Foz, mais precisamente a 5 de Março 1956.



O Zé Henrique de Carvalho julgo que dispensa de grandes apresentações, mas podemos dizer que:

- Nasceu e cresceu no seio de uma família em que as palavras de ordem foram sobretudo a solidariedade e amizade sem olhar a quem, valores que o ZÉ sempre soube preservar com o coração aberto.



Toda a educação básica do Zé Gémeo se processou nesta cidade, desde o Jardim-Escola João de Deus, passando pela Escola Primária Conde Ferreira e Ensino Preparatório na Velha Academia Figueirense, bem como posteriormente o Secundário no então Novo Liceu Nacional da Figueira da Foz.



Foi a partir do enlace do Zé com a Rosa, já em Abril de 1990, que em seu nome pessoal e como sócio gerente do Restaurante Búzio, se dedicou à defesa, valorização, difusão e promoção da Cozinha Regional da Figueira da Foz, bem como de outras Regiões.



Participou nos mais diversos eventos gastronómicos e culturais, nomeadamente nos da “Confraria do Arroz e do Mar”, tendo sempre por objectivo difundir e promover a nossa gastronomia desde o Arroz ao Pescado da Figueira da Foz e Baixo Mondego, difundindo igualmente os vinhos da região da Figueira, levando o nome da Figueira da Foz aos mais variados destinos.



Nos numerosos eventos, convívios e festivais gastronómicos em que cooperou promoveu sempre o nome da Figueira quer a nível nacional quer a nível internacional, tendo participado no Festival Gastronómico de Santarém, de Lisboa, chegando a representar o Município da Figueira da Foz na Casa de Portugal em Toronto, no Canadá.



F.Foz, 19.Setembro.2009





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Como foi dito, o Zé Henrique colaborou por diversas vezes com a Confraria do Arroz e do Mar, a última das quais aquando da Feira Gastronómica de Santarém, ocasião em que o Zé manifestou vontade de pertencer à Confraria. A intenção desta entronização datava assim de há meses atrás, o que não foi possível concretizar por “falta de tempo”.

Uma vez que não tinha havido mais nenhum Capítulo após a participação da Confraria na Feira de Santarém foi decidido proceder, agora à entronização do Zé, a título postumo.