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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Patricia

- resolvi publogá-lo depois de o enviar para uma amigo. Gostei de o reler.

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dei-te moedas, flores, água de Lourdes e de Fátima

dei-te a alma, dei-te o tempo, mas não o sangue como corre nas veias

foi como vento fútil de que não precisavas...

que poderia fazer sem ter de cortar os meus bocados sãos para os trocar pelos teus?

Irmã que voaste sem asas

Irmã que estoiraste com o meu livre arbítro na fortuna sorteada

Irmã terra, barro, carne, irmã bela de raiva, soberba de desvario


morta irmã tão viva que sublimaste um riso indecente na memória, com gargalhadas

e cigarros e fumo a evolar-se

e vinho à mesa e mãos nos pés dos cálices

mãos alegres e nervosas de bem estar

Deus Meu que a vida agride

porque te dei postais e fotos e poemas e posts e almofadas

e nada tu levaste para esse canto de agruras do escuro forno

onde te lamentámos e tu, decerto, cantavas

por ausência de dor e esse abraço de valsinhas sorridentes

em que projetámos o nosso amor.

--



mjc

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Mil dias e mil noites - para lembrar Sarajevo

Há mil dias que Sarajevo chora
e ao mundo implora um gesto seu.
Como se os fósseis, de repente, desatassem a viver
e as nuvens fizessem de fofo ninho para os bebés dormirem
e os deuses pudessem comer
à nossa mesa
e com as nossas lágrimas na garganta.

Há mil dias e mil noites que se ignora
que há espanto na morte
na sorte que Sarajevo implora
em cada minuto que sofre.

Aniversário do luto europeu
do frio que esventra campas nos estádios
do sacrifício do povo judeu que, mais uma vez, selou todos os lábios.

Muçulmanos, sérvios, croatas
todos clamam estandartes e dores várias
e os últimos judeus de Sarajevo
que falam (quem diria?) português
morrem como viveram
estigmatizados, sem lugar nem vez.

Mil dias e mil noites de clamor
e neve vermelha nos mercados
e fantasmas de fogo e de horror
e ódios a futuros já inválidos
e lenha a arder dos antigos móveis
lares em pedaços, como as pessoas
que dos mil e quinhentos meninos mortos
recordam apenas as coisas boas.

Mil dias e mil noites de teatro
de luta poética de escritores
muitos a quem os dedos já roubaram
para que da morte não sejam delatores.

Mil manhãs absurdas
mil noites trágicas
em que turcas culturas mágicas
na velha baixa muçulmana
na biblioteca e no museu
arderam depois de bombardeadas.

E se nos buracos dos obuses
que atravessaram
as paredes de meio metro do Parlamento
viver algum duende mais atento
o povo bósnio espera que lhe guarde
a alma e o talento dos seus músicos
para que, quem lá sobreviva
recorde o que hoje não se quer que viva

há 1000 dias e mil noites

escrito em 26 de janeiro de 1995