terça-feira, 10 de abril de 2018

Devido a algumas mudanças profissionais, este blog foi interrompido, mas não descontinuado.
Volto a ele ainda esta semana. Até sempre.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Os Queimados - cont.

Fora do grupo,  algumas  mulheres isolam-se, invariavelmente, para se coçarem . A cicatrização, durante este tempo cinzento e pesado, provoca uma inconsciência que leva ao rasgar da pele, ao arracar das ligaduras para chegar com as unhas aos agrafos que ainda arrepanham este cordão de lamúrias - só as pontas dos dedos estão à vista ... as luvas de tecido compressivo tolhem as mãos. E durante este julho opressivo de tempestades diárias, as enfermeiras distribuem folhetos informativos, para fazer face à canicula. Talvez em memória dos cerca de 15 000 idosos mortos de sede. na solidão absoluta do verão de 2013.
Aqui, o calor não assusta os queimados; são todos peritos em conseguir a melhor aragem para evitar esse ardor da pele que fere com agulhas invisíveis. Mas há uma frágil dama para quem tudo é mais dificil. O seu rosto não ficou deformado pelas chamas, está apenas ligeiramente manchado a vermelho. O cabelo, que pintava cor de violino, está cada vez mais cinzento escuro, e branco. Pequenina, elegante como uma "teenager", com um tom de voz entre o de Melanie Griffith e o de uma qualquer princesinha muito mimada. Chora quando lhe perguntam o que aconteceu. Não quer lembrar. O seu corpo queimado está envolto em compressivos, mas ela arranja umas roupas divertidas e irreverentes, que ainda surpreendem mais quem a olha e ouve com atenção. À porta do seu quarto foi afixado um alerta aos enfermeiros, para se protegerem, colocarem as luvas e tudo o mais que é obrigatório para fazer os pensos e o que ali se usa só para entrar. A menina-grande tem um germe num braço, que impede  cicatrização; no entanto, as vizinhas do corredor beijam-na e mimam-na como a uma bonequinha (que aqui é), sem temer o contágio. Num destes fins de semana, obteve autorização para visitar os filhos, já adultos. Veio tão contente, tão sorridente que parecia cantar enquanto falava. Num outo dia, fez uma festa de despedida à sua fisioterapeuta e convidou alguns  outros clínicos e pacientes para mostrar o quanto essa profissional a ajudou. Comeram-se bolinhos da Córsega com sumo de manga e de maracujá.

No quarto ao lado, há uma senhora de idade que, em janeiro, deste Ano da Graça de Deus de 2004, adormeceu a fumar, numa salinha de um hospital psiquiátrico, onde repousava - já devia estar medicada para dormir, nesse trágico momento, mas não confirma. Não havia vigilância; só quando as labaredas ativaram o alarme ela foi socorrida. É um daqueles casos em que as mãos ficam muito  afetadas. Todo o corpo recupera, salvo "o pescoço e dois dedos que lhe fazem muito falta", como ela diz. Vai ter alta dentro de pouco tempo, sem saber o que fará de seguida quanto às suas limitações. O marido visita-a, ao domingo, e ela põe os seus brincos de ouro e os aneis mais bonitos. Coloca um pouco de maquilhagem e tenta sorrir, no pequeno bar da instituição, que fecha às 17:00 horas. Mas os dedos não enganam: esgravatam entre a roupa e o seu fato de telas elásticas que apertam as camadas enxertadas de pele, como a todos os queimados, durante 18 meses. Num frenesim diabólico, percorrem a nuca e o peito, levantam mesmo a manga compressiva, para chegar a um dos braços. O marido, e os amigos que passam, já a avisaram, sem convicção, de que faz muito mal, deve parar de se coçar. Deixou de fumar como muitas das pessoas afetadas pelo fogo (a nicotina é a principal causa de rejeição do transplante de pele). A coceira (da pele alheia, que não se aninha como pele viva) não lhe está a deixar marcas, como ela mostra, vaidosa.
Na sala em frente do bar, jogam-se cartas, damas, dominó, triminó e mesmo xadrez. Não há nenhum "ponto de internet" para os pacientes; há uma  ergoterapeuta, Heléne, que oferece o uso do seu computador aos pacientes que têm a sorte de a conhecer para lho pedir. Um computador velho, a um canto da sala de convivio, serve para jogar solitário ou tetriz. Em dia de serão, até pouco depois das 21:00 horas, distribuiem-se as letras de músicas francesas conhecidas, para assim afinar a alma dos solitários que, a custo, são arracados aos quartos. 
Os queimados aproximam-se mais, mas também uma jovem mãe que ficou perdida num labirinto sem memória, depois de um acidente rodoviário. Está numa cadeira de rodas, de onde o corpo descai e pende para terceiros - até para se vestir. Vai a casa e, quando regressa, perguntam-lhe pela filha pequena e ela, invariavelmente, devolve a pergunta: "Filha, qual filha?" .  A sua memória recente ficou entre as chapas retorcidas do automóvel, no acidente. Mas, apontando-lhe os refrões, tenta cantar e distribui sorrisos de criança palos camaradas de infortúnio.

Já deve ter partido a mulher mais rara e solitária de L'Argentière. Quando foi internada, em janeiro, tinha um braço e uma perna paralisados, e pesava 30 quilos. Bebia. Durante os meses de reeducação, nos tempos livres, carregava um saco cheio de jornais, revistas e livros, correndo todos os bancos do jardim onde batia o sol. Bronzeadíssima, perto da negritude, vestiu sempre jeans e t-shirt branca. Fazia palavras cruzadas durante horas. Pouco mais se lhe ouviu do que uma resposta a um bom dia, exceptuando o momento em que uma recém chegada demostrou algum interesse e carinho, e ela, então, contou o que lhe ia na alma: a dor de ter um neto que não conhecia, o disparate que era a sua vida, a loucura total, a bebedeira até ao vazio, até à paralisia.

Os doentes das diferentes alas só se encontram no jardim. Ao domingo, os grupos de visitantes são olhados de revés pelos que não tem familia ou amigos... ou os têm tão longe que não podem vir. 
O avô do jovem universitário mais concentrado na sua recuperação (até por estar em piores condições) vem visitá-lo de quando em quando. Viaja de Clermont-Ferrant. Olha o neto com os mesmos olhos azuis, brilhantes de entusiasmo, alampando-se à vida como se esta fosse a rocha da eternidade. Imaginamos como teriam sido as orelhas do jovem, observando o desenho das orelhas do avô, que parece o Paul Newman e não precisa de usar chapéu de marca  desportiva para tapar uma cabeça deformada pelas cicatrizes. O neto também não, porque o seu sorriso faz desaparecer qualquer outra impressão ... mas raramente sorri. E só tira o boné para.... "nim".
Faça sol ou faça chuva, venha quem vier ou esteja quem estiver, há um drama a completar, por não se conseguir fazer entender uma sofredora argelina, a quem o fogo matou um filho e queimou os outos dois. Os vizinhos discutiam e o marido da amiga de baixo vazou um jerrycan de gasolina na sala de casa e ateou o fogo, com a  mulher e os filhos lá dentro. Fechou a porta e saiu (já está preso). A mulher, que está aqui, vivia no andar de cima, saiu e regressou várias vezes àquele braseiro para salvar as crianças, as suas e as da outra. Mas o filho que deu o alarme deixou de respirar nos seus braços. 
A fortuna não sorri a esta mulher tanto como à argelina que aqui compra anéis de ouro aos comerciantes da desgraça, que mercam ao fim de semana, e que vai voltar a refazer a pele do queixo. A  argentina  exprime-se em tão mau françês que, por mais que se tente ajudar para que desabafe, o diálogo torna-se impossivel, mas ninguém chamou psicólogos argentinos, por maior que fosse a sua dúbia fortuna. 
Por acaso, quando veio um paciente italiano, (um camionista acidentado e queimado nas estradas de França), uma outra paciente e uma enfermeira compreenderam-no. 
Mas ao fundo da memória da boa samaritana ninguém chega para arrancar o seu menino dos braços, enquanto as filhas sozinhas, recuperam noutro além: talvez até já estejam em casa de familiares ... uma coisa se conclui facilmente da história desta desgraçada, queimada da cabeça aos pés: é que o marido se desinteressou completamente do seu destino. Por isso, passa o tempo sentada à sombra de uma árvore ou deitada no seu quanto, sempre com a porta aberta ... talvez esperando uma mão, que na sua mão magoada, espalhe pó de estrelas de um novo astral.  Há dias em que grita ao telefone, em árabe, e todos acabam por a amaldiçoar... mas é sol de pouca dura ... basta-lhe este labirinto para acender mais lume nos olhos negros, pois, na sua alma triste, sempre desculpa o mal que os outros lhe fazem. Não há  atividade em que participe por causa da barreira da língua e do luto do coração. Arranha-se até fazer sangue, e não vale a pena dizer-lhe nada; só a fisioterapia a apazigua e a mudança de pensos das sua feridas na carne. 
Carne que a outros o fogo comeu e reduziu à reconstrução possivel com pele de uma perna, da barriga ou de um banco de pele. A amnésia apagou tudo o que envolveu o pânico, neste caso. As chamas do forno apagagram-se com acumulação de impurezas nos bicos do gás. Ao abrir o forno, com um cigarro aceso, colaram-se-lhe labaredas ao pijama - foi outra que deixou de fumar - portuguesa. 
Uma outra francesa, casada com um português, com um filho bombeiro, no Algarve, queimou-se quando fazia uma quirche no forno, que retirou ainda liquida, a ferver, e a desiquilibrou no colo, de cócoras. o que a fez cair, entornando o fervente produto. Não percebeu  a gravidade das queimaduras e só recorreu ao hospital passados 3 ou 4 dias, a pôr vaselina à superfície - a pele continuava a queimar em profundidade, devagarinho até ao insuportável: 3º Grau. Dias depois da sua chegada, o segundo filho, que vivia com ela, teve um acidente de mota e vai ter de amputar um dedo. Aqui, logo a animaram: um dedo anelar não é assim tão importante. A sua cabeça cheia de caracois e os seus olhos verdes farão com que as meninas apenas sintam as mãos e lhe mergulhem no coração com votos de alma..

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Os Queimados

Escrevi um livro, na ânsia de registo na recuperação, e depois, horrorizada com o que escrevi, deitei fora computador e disco rígido....quando me dei conta do que fizera, era tarde.
Mas, 12 anos depois, recupero, nas pastas da minha malograda irmã, pintora Patrícia de Medeiros, morta em 2011, um excerto da página 6 à 21. E vou transcrevê-lo. Vale a pena. São muitas histórias e vivências do absurdo que merecem ser relidas. A partir de amanhã, aqui.

Fica a primeira das reencontradas páginas (a sexta), ao fim de um parágrafo:

horas por dia numa cadeira de rodas - e confessou-o a uma outra, que já vai em quatro anos do mesmo meio de locomoção. Disse-lhe para guardar segredo, não se importava que a amada não se pudesse deslocar... ele empurraria a cadeira ou levá-la-ia ao colo.
Um casal jovem que por aí anda, depois de suscitar todas as dúvidas - não se sabia onde o rapaz dormia - acabou por ser aceite pelo pessoal médico, que arranjou um quarto nas imediações ao enamorado. Ele ficou sempre até depois do jantar e depois do fim de todas as visitas. Fumava erva com a sua companheira. A ela, o fumo não impediu as melhoras e, rapidamente, passou da cadeira de rodas para a muleta (mas não era queimada, recuperava de uma operação a uma perna, na sequência de um acidente rodoviário).
O jardim parece uma feira: coxos e manetas jogam a petanca e alguns queimados jogam badmington e ping pong. Poucos estão no seu perfeito juízo. O batalhão de psicólogos e psiquiatras realiza-se aqui, em plenitude.. Não é por acaso que Sainte- Foy-l'Argentière foi hospital militar de veteranos da I e II Guerras. A propriedade de 18 hectares foi oferta de um nobre para um colégio feminino na metade do século XIII. Em 1273, o nobre Damoiseau Aymont de Coise consagra uma parte dos bens à construção.
No tempo de Napoleão, 1804, um seu sobrinho, monge, fez dele um seminário (correu com as raparigas) e fez dele um seminário. Com a separação da Igreja e do Estado, e dos seus bens, a República apropriou-se de l'Argentière. à francesa.

Não é importante referir os nomes dos que aqui chegam e partem.
Chegam envoltos em faixas, como múmias arrancadas à morte e, depois, com o passar dos dias, vão surgindo com novos moldes plásticos nos rostos atormentados.. Os 'garagistas' do lugar autoclamam-se "Robocop's", a si e aos outros. Se entristecem um pouco mais, e se escondem no parque, passam a ser 'fantasmas'. São vários.
Depois do jantar, às 19horas, mesmo com chuva, há encontro tácito, marcado no jardim. Vêm alguns dos paraplégicos de outras alas, por outras causas, e trocam graçolas de mau gosto.
Algumas raparigas retiram os autocolantes de nicotina para deixarem de fumar e pedem cigarros. Trocam os NTB da farmácia (nem tabaco nem nicotina) por Marlboro, Camel, qualquer tabaco ou erva para enrolar em mortalhas que nunca faltam. Sabem que atrasam a cicatrização das suas chagas.
Uma das mais belas e originais é uma vietnamita que, há quatro anos, vive limitada à sua cadeira de rodas verde, depois de múltiplos transplantes num calcanhar que não cicatriza por não deixar de fumar. Os médicos fornecem tudo o que ajude ao fim do vício. Mas, no auge do desespero, ela arranca os "patchs" redondos que lhe marcam os braços e enebria-se com o primeiro cigarro que alguém lhe der. Aqui, o tabaco é como a droga. Lá fora, incitam-se os jovens com oferta de algumas gramas, para que se tornem clientes mais tarde. Aqui, dão-se cigarros por pura maldade, para não se descarnar sozinho. Por isso, aos que partem cedo deste círculo vicioso, não se olha o rasto, diz-se um bom dia . como quem atropela um gato - sempre é um felino com magestade.

continua.

domingo, 15 de novembro de 2015

Mundo perdido em Paris

Se as lágrimas do povo caiem
as balas do terror abatem
os gritos dos feridos sufocam
com tiros e loucura no ar
a ferida profunda alarga
logo que a memória abala
com a lógica do medo que mata.

Há corações que desfazem
horizontes dos que vêem
quem luta pelos que agem
morrendo até se perderem
neste mar que nos separa
e une numa tragédia
no coração, na lanterna
do amor que ilumina as cidades.

Cara de anjo, relatam 
sobre um dos assassinos da esperança
15 anos? 18? Que importa?
Um em oito que entram e matam.

O luto rasga uma esperança
que a dor dos outros amansa
e nos impulsiona ao teatro
das operações de chegada
no migratório calvário
dos exilados da vida
do conforto e da mentira
dos sonhadores e  mercadores 
de sangue fresco  
à nossa porta de entrada.

E agora? 
Damos pés a quem os perdeu? 
E mãos a quem nâo as tem? 
Melodia a quem se foi
a caminho do além?
Um copo a quem não bebeu
se atirou ao chão e temeu
a angústia que nos tomou
como um aviso do céu?

Nada....silêncio e nada.
Uma fada pega nas almas
os técnicos nos restos de seres
as filas dos que fogem da guerra
estancam à ordem das bestas.

No país da flor de lis
no coração de Paris
o mundo perde outra vez.


                                                É a minha humilde homenagem às vítimas em Paris e aos  exilados da guerra

sábado, 14 de novembro de 2015

Boa noite, Paris, boa noite, Mundo!

É hora de dizer boa noite. Boa noite aos meus camaradas e amigos, em Paris. Boa noite aos sobreviventes, que não vão dormir por causa dos flashs dos acontecimentos com que o cérebro humano nos brinda, depois de súbitas situações de gravidade extrema e dos odores que não sentiram ainda, mas vão ser interiorizados e ressentidos daqui uns dias - a mente é lixada. Ao amigo do jovem Alexander, que tem a mão meio decepada - ainda não sabemos se foi amputado - aos desaparecidos (por identificar)....que devem estar no caminho da eternidade que se conquista com a morte e se interrompe com a vida...Boa noite aos técnicos forenses, aos médicos e demais pessoal dos serviços de emergência médica, que começam o turno da loucura, do peso do inimaginável. Boa noite aos bombeiros, aos condutores de viaturas funerárias, aos taxistas e motoristas do Uber e Drive, que ofereceram os seus serviços gratuitos aos fugitivos do horror. Boa noite aos residentes, que abriram a porta de suas casas a dezenas, muitas dezenas de pessoas em desespero. Boa noite, Paris. Boa noite, Mundo.

O Tempo está sempre contra os reféns



Rescaldo da sexta-feira negra em Paris/ comunicado do EI/ISIS/DAESH

O jogo amigável entre a França e a Alemanha, na sexta-feira 13 mais negra da história europeia rececente, transformou-se, com o desencadear do pânico devido às explosões que se ouviram e à apressada saída, do estádio, do presidente francês e do vice-chanceler alemão. A vaga de pânico provocou vítimas e, no exterior ficava o cadáver mutilado de um dos kamikazes.
A tragédia podia ter sido enorme, pois milhares de pessoas estavam no estádio.

Na sala de espetáculos do Bataclan eram 1500. Foram feitas reféns, e os sobreviventes que conseguiram chegar a um compartimento junto às escadas do palco e fecharem-se, tiveram de sair sobre os cadáveres dos que não conseguiram entrar e se esconderam sob os degraus do palco. O condo terrorista abateu-os indiscriminadamente, aos gritos de "Pela Síria" e "Allah Akba".  

Uma viatura em movimento, semeou o terror nas esplanadas do restaurante "Pequeno Camboja" e outros, com os atacantes a visarem os clientes, que, em pânico se atiravam para o chão e se tentavam esconder debaixo das mesas. O suficiente para aparecerem já algumas descrições dos suspeitos em fuga.

Enquanto se desenrolavam os acontecimentos, os reféns do estádio imploravam, chorando, informação telefónica pois ficaram todos sem acesso à internet, durante algum tempo.A maior crítica foi a falta de informação no estádio e o tempo que Hollande demorou a dirigir-se à Nação.

França resolveu abafar a informação sobre os fugitivos e declarou que "os terroristas foram todos abatidos", o que é falso: os agressores, em movimento, não foram encontrados apesar do anúncio de medidas e fecho de fronteiras. O correspondente da RTP, Esteves Martins passou, tranquilamente, da Bélgica a França, Bruxelas-Paris, sem qualquer controlo.

Muitos tweets com informação não oficial foram desaparecendo, à medida que eram publicados. A segurança está a cercear, mesmo, a liberdade. Como dizia Benjamim Franklin, há dois séculos, "se, para impôr a segurança temos de sacrificar a liberdade, não merecemos nem a liberdade nem a segurança". Está a acontecer.

A região de Rhones/Alpes está em estado de prevenção máxima, em torno das centrais nucleares e termo-elétricas,, do Centro de Investigação de vírus da ONU, onde trabalham agentes das Nações Unidas de 150 nacionalidades - igual ao PK4 de Atlanta - e das Escolas e Universidades Internacionais. A INTERPOL está a colaborar profundamente para a detenção de jihadistas localizados.

O alegado Estado Islâmico apelou aos "Irmãos" para sairem à rua com as suas armas e utilizarem todos os meios para matar "cruzados", nomeadamente o veneno para a água e alimentos. Essa informação foi censurada. 

Mas há um comunicado a circular, que abaixo transcrevo.*

Também Londres está em pé de guerra, depois da apreensão de material suspeito no metro e compara o horror de Londres ao que se viveu em Bombaim, com diversos bombistas de um comando a entrar pelos hoteis e a atirar contra tudo e contra todos. Cameron afirmou-se solidário, falou em francês, ao assumi-lo.... porque "estão a atacar pessoas que trabalharam toda a semana e descontraiam merecidamente, numa sexta à noite, como todos nós fazemos". Admitiu que devem estar ingleses entre as vitimas e fez desta uma causa franco-saxónica, de britânicos e franceses.









quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Quem é quem, institucionalmente, em Angola

Em Angola há muito que praticam a austeridade.
Por exemplo, não gastam dinheiro com Conselho de Ministros – reúnem-se ao fim de semana em almoços familiares. 
A prova: 
1. Ministro das Finanças: Carlos Lopes, marido da irmã da primeira-dama Ana Paula dos Santos. 
p3. Vice-Presidente da República: Manuel Vicente, enteado da falecida irmã do presidente José Eduardo dos Santos. 
4. Secretário de Estado para a Habitação: Joaquim Silvestre, irmão da primeira-dama Ana Paulo dos Santos. 
5. Secretária do Presidente para Assuntos Particulares: Avelina dosSantos, sobrinha do Presidente José Eduardo dos Santos, filha do seu irmão Avelino dos Santos. 
6. Administrador dos Fundo Soberano: Zenu dos Santos, filho do José Eduardo dos Santos. 
7. Secretário-geral da Casa Militar: Catarino dos Santos sobrinho de José Eduardo dos Santos, filho do seu irmão Avelino dos Santos. 
8. Presidente do Conselho de Administração da EPAL: Leonildo Ceita, primo da primeira-dama. 
9. Presidente do Conselho de Administração da ENANA: Manuel Ceita, primo da primeira-dama Ana Paula dos Santos. 
10. Presidente do Conselho de Administração do Banco de Comercio e Industria (BCI): Filomeno Ceita, primo da primeira-dama. 
11. Director do Instituto Nacional de Estatística: Camilo Ceita, primo da primeira- dama, Ana Paula dos Santos. 
12. Presidente do Conselho de Administração da MECANAGRO, da GESTERRA e presidente da Federação Angolana de Hóquei em patins: Carlos Alberto Jaime Calabeto, sobrinho/primo do presidente José Eduardodos Santos. 
13. Governador do BNA – Banco Nacional de Angola: José Massano, amigo pessoal e ex-colega de Isabel dos Santos, filha do presidente José Eduardodos Santos. 




14. Vice-governador do BNA: Ricardo de Abreu, compadre e amigo pessoal de Isabel dos Santos, filha do presidente José Eduardo dos Santos. 
15. Ministra de Comércio: Rosa Pacavira, sobrinha da esposa de Avelinodos Santos, irmão do presidente José Eduardo dos Santos.
16. Administrador da TAAG, Luís dos Santos, irmão do presidente José Eduardo dos Santos. 
17. Presidente do Conselho de Administração da ANIP: Maria Emília Abrantes Milucha, mãe da Tchize e Zé Dú dos Santos (Korean Dú) filhos do presidente José Eduardo dos Santos. 
18. TPA 2 entregue a Semba Comunicações, empresa de Tchize e Korean Dú, filhos de José Eduardo dos Santos. 
19 Presidente do Conselho de Administração da Sonangol: José Francisco de Lemos, primo da primeira-dama Ana Paula dos Santos.
 

11 de novembro...e....

11 de novembro deixou de ser festa: qualquer manifestação pela liberdade de expressão em Angola passou a ser tratada como ingerência diplomática passível de repressão interna e objetivo de ameaças e sanções externas.


11 de novembro, durante o meu internato no Rainha Santa, em Coimbra, foi dia de festa com s minhas camaradas (de camarata), vindas de Angola, Guiné, Moçambique.
Os pais tinham-nas enviado, primeiro, para colégios portugueses, antes de eles próprios "retornarem", tentando prceber como se desenrolava o futuro nas colónias.
Eu, cumpria o castigo de ter ido var os Genesis a Lisboa, sem autorização paternal.
Ainda hoje, são as minhas maiores amigas. Aprendi África da forma mais poética e revolucionária, pelos olhos dessas artistas e cientistas em floração que me ensinavam a música, a liberdade e o pôr do sol com os olhos das adolescentes que éramos...só que elas, sem limites: pé na areia, roupas que desnudavam os ombros e sombras quentes a afoguearem o olhar.
11 de novembro era sempre dia de festa.
A Irmã Dulce, aberta ao nosso mais feroz anarquismo, trazia-nos georpica e nós pintavamos umas faixas negras com slogans em a branco,que atavamos na testa. E tocavamos viola na torre, até de manhã. Cantávamos baladas bascas e galegas da guerra de Franco, e sentíamos-nos livres. A irmã Dulce foi sempre o nosso Anjo dos Açores, e nunca as outras souberam o que fazíamos, quando fugíamos da camarata nesss noites indizíveis.

Muito mas tarde, o 11 de novembro deixou de ser data de festa.

Hoje, é data de independência, apenas.

- Quando é que acaba esta coisa da independência, Patalão? Estamos tão fartos....pergunta um antigo empregado a um dos sobrinhos de Fernando Borges, uma imagem do celeiro de África, a sua reincarnação, que manteve a produução durante a guerra contra a promessa de respeito pelas fronteiras da propriedade....

O Patalão chegou de Angola há muito pouco tempo e reformou-se. A Angola do último ano ia-o mantando. Sobrevive com o amor dos amigos e da família.

11 de novembro deixou de ser festa: qualquer manifestação pela liberdade de expressão em Angola passou a ser tratada como ingerência diplomática passível de represão interna e objetivo de ameaças e sanções externas.

Como o controlo dos Media, em Angola, é eficaz, ouviu-se a absurda acusação de que "os opositores detêm os meios mais eficazes de divulgação mediática" como se isso fosse um pecado....

Neste 11 de novembro também houve um golpe de Estado "palaciano" em Portugal: a aliança mais votada foi impedida de governar pelo partido que ficou em segundo e se foi aliar a partidos com os quais, geneticamente, faz faísca. Tudo pelo poder e nada pela festa. Tudo sem o acordo dos próprios eleitores....

França faz feriado, os Estados Unidos também....porquê? Ninguém percebeu das notícias do dia. Cada vez há mais pedra para partir, conversa de surdos, e menos notícias sobre o mundo em que vivemos.

11 de novembro e eu vesti-me de luto.

Quebrou-se algo doloroso no meu coração.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Síria

 É tão ultrajante a indústria da morte como a indústria da mentira. Os milhares de desaparecidos sírios, desde o início da revolta popular e da oposição, até ao aparecimento dos proselitistas de derivados da Al Qaeda e do EI (que ocuparam a ribalta da revolta internacional), são mortos à fome com torturas inimagináveis (que afinal a ONU conhece há 4 anos) e enterrados em valas comuns de que há fotigrafias de satélite. Pior do que o Holocausto ou do que o genocídio do Ruanda, é viver numa sociedade, tecnologicamente avançada, e deixar prisioneiros de consciência continuarem a morrer de fome e torturas que afetam profundamente os sobreviventes. Desta vez, há um grupo de fugitivos das prisões, sobrevivente das câmaras de tortura, ativo e com fotografias numeradas dos mortos para começar a identificar o espetro dos desaparecidos, A ONU tem de assumir o papel para o qual foi criada. Lá porque a Rússia não quer....que se lixe o Putin: há milhões de pessoas em risco, crianças torturadas, idosos....um horror o tipo de torturas nomeado e descrito, fotografado e divulgado. Não Há desculpa, senhores. O mundo envergonha-se e tem de acolher quem foge de tais monstruosidades. Holocausto e hoje, genocídio outra vez.... o tal que um parvalhão da ONU (em relação ao Ruanda) disse: "NUNCA MAIS".

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Figueira da Foz de luto



A Figueira da Foz está de luto pelos seus pescadores, desaparecidos em condições tão trágicas, aos olhos de todos. Eu estou de luto pela roupagem de inverdades em "catadupa", proferidas no calor do drama, pelas autoridades competentes, pelo silêncio do capitão do Porto, Paulo Jorge Oliveira Inácio em relação aos salva vidas avariados e à barra aberta (com a construção do molhe atravessado, entrar na barra com vento sudoeste é uma possível viragem e naufrágio a cada entrada na barra). Estou de luto pela surdez autárquica às críticas e sugestões sucessivas dos jovens arquitetos e surfistas, pescadores e amantes do mar e da sua costa. Há exemplos do by-pass sugerido, contra a erosão da costa, nos Estados Unidos e Austrália....porque teimam na estupidez com aleivosia e tapam a tragédia tal como tapam mal todos os buracos e remendos da cidade? Há que destruir o mal feito, recuar, recuperar. Por agora, solidarizamos-nos com as famílias. Mas não contem com a desistência dos cidadãos! O Estado tem de ser responsabilizado e obrigado e redimir-se. A nossa costa tem de ser salva. E NUNCA MAIS abram a barra sem salva vidas prontos para acorrerem. A barra estava aberta a barcos com mais de 11 metros. E sim, os homens deviam ter os coletes vestidos e sim muita outra coisa...mas a negligência maior foi de quem devia capitanear o porto e negligenciou a responsabilidade.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Figueira, Lyon, Sarajevo

A primeira pessoa que entrevistei foi Armando Jorge, diretor da Companhia Nacional de Bailado, que concedeu a entrevista à estudante de Direito, simplesmente por ser da Figueira e ele se ter estreado como dançarino no Casino da cidade.
A minha vida de jornalista ficou absolutamente ligada à de pertença à Figueira, apesar de ter nascido no Hospital Militar na Estrela, Lapa (que também se revelou uma sina). No entanto, a minha vida de jornalista começou num telhado com vista para o Rio Tejo, à conversa com David Mourão Ferreira, professor de Letras e Literaturas Modernas na mesma Universidade em que eu estudava Direito. Perante o meu desalento, por estudar algo que não queria e não haver, ainda, cursos de jornalismo, o Poeta  aconselhou-me:
- Fazes como todos: dois anos num curso qualquer e um estágio de oito meses num jornal. Depois de ganha a tarimba, o teu coração vai guiar-te.
O coração, no entanto, indicou-me outro caminho.
Depois de liderar o 2° ano de Direito dos estudantes que integraram o grupo que ocupou a Livre, acabou com ela e fundou a Lusíada, umas férias sabáticas no Algarve pareceram-me bem.
Queria um caminho; não havia ruas nem estradas.
Deixei a minha filha pequena com a mãe Marta (que, muito jovem para ser avó, assumiu-se sempre Mãe duas vezes, e eu a Mamã).
Nos primeiros dias, no Algarve, tive a oferta da gerência da loja Ton sur Ton e o pedido de voz para uma rádio pirata... as pequenas expetativas de realização do sonho.
O artista plástico e empresário, ex-gerente do Bergantim, Zeca Castilho, ofereceu a estadia na casa com outros amigos que tentavam iniciar uma vida profissional em todas as áreas.
Uma rádio pirata é uma aventura.
Quando Cavaco Silva ganhou as eleições como primeiro-ministro, eu abri a janela do estúdio a um fotojornalista do Diário de Notícias, para irmos ao telhado, fazer o flash do professor eleito, na sua vivenda de férias Mariani, a uns metros do Hotel Montechoro. Um telhado não é um muro nem um fim; é uma pista de realização de sonhos.
Carlos Albino, casado com Lídia Jorge, e com a pasta da Diplomacia do DN, era o meu espetacular chefe, fundador da interventiva pirata.
No dia seguinte, lá estava a foto de autênticos paparazzi na manchete do DN. Um escândalo, na altura. Tínhamos devassado a privacidade da figura pública (mais tarde convidou-me para almoçar na mesa dele, num encontro com 50 jovens quadros do país; o motorista dele foi levar-me à estação de comboios para a Figueira, e ao Carlos Queiroz ao aeroporto) antes de, ele próprio ter acabado a refeição.
Na Rádio Albufeira eu fazia um programa célebre, na época: “A Moira da Noite”, com belíssima música portuguesa e do mundo (depois tinha a manhã - com o 5 estrelas, e o domingo, com Sal, Sol e Sul, informação e música). O genérico d’A Moira da Noite era "The piano has been drinking, and the carpet needs a haircut, not me, not me...."
Um dia foi lá à rádio (eu ficava sozinha entre as 20 e as 23 horas) um amigo meu, pedir-me para fazer babysitting a dois bebés...leões. A namorada era responsável de um jardim Zoológico europeu e estava de passagem para os levar e tinha-me trazido música de África. Só tinham aquela noite. Claro que sim, os leõezinhos eram tão "quiduxos", com umas "patorras" que me atiraram logo ao chão à primeira brincadeira. Acabei fechada no estúdio à chave, e os bichos dourados do lado de fora, na salinha.
A originalidade da Moira da Noite estava também nas pessoas que escolhia para entrevistar ou "passar música", como o Fernando Pereira, o Rui Veloso, o motard e fadista Rodrigo, Carlos do Carmo... e toda a população algarvia, incluindo a célebre cantora Bonny Tyler, com quem jogava ténis quando ela não tinha par (gosto de água e não de bater bolas; ela ganhava sempre).
A festa acabou com a atribuição de alvarás, um escândalo. A Rádio Albufeira era inconveniente, dava notícias e ensinava o ouvido do público a trautear Fausto em "Por este rio acima", uma das obras-primas do artista. A "Solar Radio", inglesa, para os bares dos anglo-saxónicos, embalava os turistas para consumos mais fáceis, não indagava autarquias como a de Tavira e as construções na areia, de prédios que se sabia irem ruir 20 anos depois.  

Abrindo o CENJOR, pelas mãos do saudoso João Marques de Almeida – Marquês, como o tratávamos com carinho - fiz o primeiro Curso de Formação Geral em Jornalismo, Técnicas Vocais, rádio, televisão e jornais... tudo e com as técnicas jornalísticas todas e estagiei no CM.
Como canto e procuro sempre a música, integrei-me no Hot Club de Lisboa e fiz várias reportagens sobre jazz. Durante uma semana vivi, praticamente, com um grupo de amigos para a vida, o Caínha (Carlos Martins), o Babá (Bernardo Sassetti) o Carlos Barreto e outros. Reencontrei o Caínha nos sítios mais incríveis, ou quando vinha do mato, em Angola, e passava em Luanda (interrompeu um espetáculo, no auditório da Rádio nacional de Angola para me pedir para entrar (quando eu espreitava) e sentar-me nos degraus... inimaginável... em Macau também.
Era tão difícil arranjar trabalho jornalístico pago como hoje. Consegui "ganchos" na Revista do Instituto de Formação Profissional, dirigida pelo meu estimado Eng. Bagão Félix, que me comprava artigos sobre inventores portugueses que ganhavam prémios, e outras originalidades, trabalhei como assistente pedagógica no CENJOR - posteriormente fiz o Curso de Formação de Formadores com os meus amigos Eugénio Alves, do Clube de Jornalistas, e Vítor Bandarra, fiz um jornal com o Marquês, na Ericeira: “O Acontecimento” só apresentava notícias e reportagens positivas, construtivas.... mas o dinheiro não entrava.
Criei, então, com a Ana Rodrigues, que depois iria para a Rádio Renascença e faria parte da minha família jornalística e afetiva, a APJJ - Associação Portuguesa de Jovens Jornalistas. Criávamos sinergias, conseguíamos patrocínios que financiavam diretamente projetos de formação, solidariedade (a Dra. Maria Barroso foi madrinha de uma das festas de Natal que fizemos para os meninos da rua, com o apoio de um clube de futebol e muitas marcas de sumos, brinquedos, comida..., intercâmbios com universidades como a Sorbonne e jornais como o El Pais, com jovens jornalistas de 11 países da América Latina e Europa...tanta, tanta ação espetacular! Levávamos os jovens jornalistas a Bruxelas, onde eurodeputados como António Capucho, um gentleman, organizavam visitas a colegas de todos os partidos portugueses e diferentes nacionalidades. 
Fazíamos conferências onde os Media nacionais nos chamavam. Eu e o também jovem, na altura, José Alberto Carvalho íamos muito para a zona de Viseu (onde ele tem raízes) e Castelo Branco. A convite de Rui Bondoso, fizemos uma das conferências mais eficazes em Moimenta da Beira!
Organizámos o I° Congresso Nacional de Jovens Jornalistas no Casino da Figueira, mas convidámos os Mais Velhos, para bebermos das suas palavras e experiência, para nutrirmos a nossa curiosidade e guiarmos as nossas pesquisas.
O acordo foi simples: o Casino (que também tinha os hotéis) cedia o espaço e dava a dormida, os restaurantes davam as refeições e, alegremente, todos apareciam em todos os telejornais e jornais do país durante quatro dias.
O ministro da Juventude, Eng. Couto dos Santos, muito amigo da associação, pelos resultados apresentados com a parte do dinheiro dos subsídios (a APJJ geria os projetos com dinheiro de empresas com grandes marcas e bancos, sem nunca deixar um tostão por investir e sem lucros) fez questão em estar presente. Dançou no Pessidónio e esse mérito ninguém lhe tira. O jornalista Henrique Garcia - que seria meu patrão na mítica Rádio Geste, até falir e fechar), saiu das urgências do hospital, em Lisboa, diretamente para a Figueira da Foz "por não poder falhar tal iniciativa", Adelino Gomes, Joaquim Letria e, o jovem José Rodrigues dos Santos, em plena lua-de-mel. Cerca de 500 profissionais e candidatos falaram de jornalismo nos painéis do Congresso, nos bares, nas ruas, em todo o picadeiro. Debatia-se o acesso à profissão e, essencialmente, o drama dos recibos verdes.
Por causa disso, eu e o João Mesquita alimentámos um ódio de estimação até à demissão dele do Sindicato de Jornalistas. Por causa da nossa exigência do fim dos recibos verdes (que prometia resolver e nunca cumpriu). Impediu o meu acesso à carteira de jornalista alegando que eu não podia ser freelancer sem ter quatro anos de profissão; mas os estatutos não permitiam o exercício à profissão sem carteira. Resolvi o problema com credenciais, claro, e ajuda de muitos amigos como Jorge Morais do antigo e inigualável Tal e Qual e de Mário Bettencourt Resendes, do DN. Mas ainda consegui ter a carteira preta dos tempos áureos.
Quando a Radio Geste definhava e sobrevivia com os telex's da TFS e de amigos como o Jorge Perestrelo, aceitei o contrato na Lusa, a conselho do próprio Henrique Garcia, mas a agência não me enviou ao Iraque quando rebentou a guerra. Ficou "atravessado".
Assim, quando começaram a chegar os telex's com relatos de "tiroteios esporádicos" na Jugoslávia, várias vezes ao dia, fui ao Sebastião Bar onde o Mário Viegas declamava, o Assis Pacheco escrevia, e todos os jornalistas de então se encontravam (foi na fase pós-Procópio e Foxtrot, em que o bar já era João XXI, e anunciei que aceitava contratos para a guerra na Croácia. O grande Joaquim Pelejão Marques, dos jornais de desportos motorizados, recolheu as minhas propostas à peça para a RTP, RDP, Tal e Qual e DN. Noutras guerras alternava com a SIC e a Renascença.
O namorado de então levou-me ao aeroporto num Lotus Spirit. A minha bagagem era um capacete duplo (2kg), um colete antifragmentos de 15 kg (emprestado pela Marinha), uma pequena mochila com tabaco (ótima moeda na guerra), muda de roupa e marcos, material de trabalho e boa vontade - 17 kg a mais dela. Esperava-me um agente da sua companhia de seguros (foi a única vez que me fizeram um seguro para ir para a guerra, assumo), para preencher os papéis no capô do carro, dizendo-me que não compreendia o que eu ia fazer. Eu, jovem, voluntariosa, disse-lhe que ia compreender o que era a guerra, nem mais nem menos. Vim de lá sem compreender nada, viciada em adrenalina e com o cheiro a morte narinas adentro. Já no caminho para casa, com um jornalista francês, fui presa em Ljiubliana por fotografar a carga de camiões austríacos
Para esta guerra, o Jorge Perestrelo tinha-me emprestado um Sony de bolso porque eu gastara o dinheiro adiantado em películas, objetivas e máquina, o que já não dava para mais. Aprendi como funcionava a Nikon em pouco mais de uma hora, assim como as bases essenciais da fotografia de guerra (aproximar-se o suficiente, ir onde os outros não vão) a fixar as "tracejantes" dos bombardeamentos aéreos noturnos, numa das funções da máquina, mas não esquecer onde punha os pés por causa das minas.
Fui para casa de uma família, em que já tinha estado o Dimas da Comercial. O filho de Davorka e do Júlio, Philipe, foi o meu intérprete e guia, até ser preso e integrado no exército por ter trazido connosco uma granada de obus que acabou por disparar, por acidente sem propulsão mas com calor, para o prédio do vizinho. O "louco" do Sena Santos telefonou-me duas horas depois de dar a notícia de que tinham bombardeado a casa onde estava uma jornalista portuguesa, toda a gente estava a dar o exclusivo e eu não dava nada? Paga por eles? Com exclusivo? Que vergonha. Explicar-lhe que tinha deixado o miúdo trazer aquilo connosco e que fora uma negligência. Implorei e ele foi sensível, a notícia morreu ali... fazia-lhe nove e dez por dia, compensava.
Aprendi a sobreviver na Croácia, a cambiar o dinheiro no mercado negro e a ganhar com isso todos os dias. Trouxe o mesmo dinheiro que levei e ainda comprei presentes para a família que me acolheu.
Comecei a participar em "international pools", onde os repórteres depositam o material que trazem e se servem do material uns dos outros. Partilhava automóvel com veteranos franceses, italianos, japoneses. O Daily Telegraph pedia-me slides de Osijec, Vukovar e Vincovcki, porque o jornalista que tinham e me dava boleia não fotografava, mas dizia que comigo havia sempre "festa", no sentido de sermos servidos em termos de reportagem de bombardeamentos e de atrocidades.
Quando chegávamos ao hotel Continental para transmitir as reportagens por telefone, os camaradas acolhiam-nos loucos de contentamento porque chegávamos em dias muito maus, de muita corrida como coelhos por pradarias fora para evitar balas. Em Karlovac, para furar o cerco, tivemos de passar uma autoestrada minada, cheia de snipers. Passámos por carros com camaradas dentro, aos gritos, sem podermos socorrer, para não morrer. Nesse dia fotografei kamikazes que beberam o seu último grog ou cerveja, cobriam o rosto com o gorro "passa-montanhas" preto e iam, aos três, disparar ate ser mortos pelos sérvios que tentavam tomar o quartel.
No Continental, depois de uma crónica, fumei um cigarro (sempre com a mão em concha por causa da pirisca ardente) numa barricada de sacos de areia, em frente. Precisava de descansar e estirei-me no momento em que uma bala fez a areia correr pelo meu rosto. A polícia militar apanhou o sniper. Um jornalista italiano com botas de cowboy quis, por força, ir lá colocar-se na mesma posição para descrever bem em que posição eu estava. Outro sniper apanhou-o a ele. A Polícia Militar já não foi revistar mais prédios.
Todas as 24 horas de todas as guerras que cobri são horas, minutos e segundos de histórias de sobrevivência, perdas, vómitos, medos vencidos. E depois da primeira guerra, continuei a cobrir conflitos armados em muito mundo.
Qual o episódio que me marcou mais? Crianças vivas queimadas nos esconderijos? Catedrais bombardeadas? Tréguas violadas? Encenação de cadáveres para os inspetores da UE? Destruição de Vukovar? Ter de pegar na câmara de um camarada checo que ficou sem braço e tinha um bebé para criar e não tinha seguro? Que me pediu para o filmar? Ou ter os lobos da propaganda de guerra a tentar vender imagens montadas, execuções sumárias? Ou um diretor de hospital a chorar com o estado em que os sobreviventes chegavam à mesa das operações? Ou o desgaste de ter de amputar para não perder tempo e salvar  vida de mais uns quantos? Fazer de morta no meio de cadáveres ou filmar bombardeamentos num Mig de instrução?
Tenho tantos episódios marcantes quanto as saídas em bombardeamentos, progressos em terreno com mercenários ou militares, dormidas em trincheiras, em Angola, onde acordava com cobras verdes de 8 cm, mortais, partidas em duas, sem perceber quem me salvava a vida. Dormia exausta, claro, sonos de duas horas.
Há um que marcou a viragem para começar a sair da longa espiral... foi em Sarajevo. Depois da reportagem, ao telefone, por satélite, para a Rádio Renascença, fizeram a tola surpresa de ter em conferência, no fim da reportagem, a minha mãe e filha. Achei que era a pior surpresa do mundo e "rezei aos santinhos" para se manter o silêncio de um qualquer intervalo nos combates: "Sim, estou bem, está tudo calmo...." e eis que começa um dos mais terríveis bombardeamentos na cidade, com um ataque direto à televisão bósnia onde eu estava e já vivia desde que bombardearam o meu quarto no Holiday Inn e tive de dormir na banheira para me proteger dos ataques. A ligação caiu, a comunicação perdeu-se e eu desesperei com as dúvidas que deviam estar a assombrar as minhas Martas (mãe e filha).
Lembro-me que num dos piores dias em Sarajevo comprei um bocadinho de água no fundo de um garrafão por 20 dólares para lavar (na cantina da TV) a camisa encharcada em sangue dos mutilados a quem fiz torniquetes em frente do Parlamento.
Os AV5 blindados da ONU não paravam. Ao fim de socorrer sozinha 7 feridos graves, apareceu a equipa da BBC que ajudou com os outros oito. Enfiámo-los numa camioneta de caixa aberta e seguimos atrás, para o Kosova Hospital. Dramático esse dia. Não percebia porque ainda tinha pernas e porque é que aquele sangue que corria todo pelo ralo não era meu... seria? Mais tarde, sim.
Conto isso em "da guerra...e outros poemas", edição Gresfoz, de 1997. Mas conto mais ainda, em 20 anos, 20 histórias (com as deste ano, em Sarajevo), em França e na Bósnia.
O José Rodrigues dos Santos também conta as minhas aventuras e desventuras em Crónicas de Guerra, nos três volumes.
Este ano, em junho, foi em Sarajevo que celebrei o meu aniversário (bem, três dias depois), com outros veteranos.
Ser figueirense no mundo, para pessoas como eu, é telefonar para os bombeiros (onde fui voluntária) para saber como está o ex-colega que foi para o hospital, ou como correu um parto na ambulância, ou quem ficou naquele acidente noticiado... é estar 16 anos a trabalhar no mesmo sítio sem assumir que se vive no país, apenas se trabalha. Porque "vivo" na Figueira. 
Trabalhei pela Figueira fora da minha redação que transmite para todo o mundo em 13 línguas, com camaradas que enriquecem tudo o que produzimos com a cultura e experiência próprias de quem vem de longe e se encontra na mesma Torre de Babel. 
Defendemos a permanência na Euronews dos ucranianos com a mesma garra que defendem os nossos camaradas russos, quer queiram ou não os Putin's deste mundo. Todos os persas têm família no Irão e também têm de gerir essa realidade. O mundo "euronewsiano" é rico, nesse aspeto, stressado, desempoeirado e solidário (a maioria assinou pela manutenção da equipa ucraniana pondo em risco os próprios postos de trabalho).
Pensar na minha cidade é não falhar uma ocasião para a promover ou criticar construtivamente. Promovi e promovo o Sunset, mas também milito contra a municipalização da praia. Sou pelo bypass da SOS Cabedelo e de outros atores sociais, sou a favor de dar a palavra aos arquitetos, aos pescadores, aos surfistas. Tenho um género de traumatismo provocado pelas construções na areia que levaram a tentativas de corrupção e ameaças no início da minha vida como jornalista.
Trabalho numa placa giratória no centro da Europa, que roda em todos os sentidos: para a guerra, política europeia, análise da crise económica mundial, aquecimento global... mas, quando fecho os olhos de cansaço e inspiro, juro que sinto o cheiro da maresia da Figueira.  

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

quinta-feira, 25 de junho de 2015

WARM Festival sarajevo

Sunday June 28th / 17:00
‘Memory and War Commemoration into question -
with Jasmina Pasalic (President of the Foundation Sarajevo Heart of Europe), Joseph Zimet (Director of the Mission du Centenaire 14-18), Nicolas Offenstadt (Historian), Aida Begic (Filmmaker)
Sarajevo started the XXth century with a war and ended it with a war. A symbol in European history, the city came into the spotlight last year around the 28th of June 2014, during the commemoration of the centenial of the First World War. Sarajevo hosted cultural, sporting, educational and scientific events to commemorate a year of European history and to look at the challenges facing the present and the future of the Balkans region. Created under the impulse of European countries and the city of Sarajevo, this international event aimed to promote the values of solidarity, peace, dialogue and cultural diversity in a city still troubled by the consequences of a terrible conflict but with a youth that is bubbling and eager.
A year later, we take a look back on what was done. What is the impact of commemoration on the long and medium term? How can we learn from our strengths and failures for the future? Is commemorating the First World War in Sarajevo different than in other European cities, given its specific situation in European history? What does it mean to commemorate a war with the goal to create a bigger debate on history and culture, and should we even do it? Is Art and History the right medium ?







WARM (War/guerra, Art, Reports (reportagens), Memories Na essência, anti-belicista, esta iniciativa visa a partilha de experiências dos repórteres de guerra, consolidada através de diferentes canais e Media: cinema, fotografia, livro, debate. A Fundação WARM vai abrir, em Sarajevo, um centro dedicado à honrosa profissão dos repórters de guerra. - Remy Ourdan (Presidente da WARM e jornalis do Le Monde): "Izvještavati iz Sarajeva bilo je posebno iskustvo - Vesna Andree Zaimović, Radiosarajevo.ba"





Lei da Mordaça na Era Digital


Um protesto virtual em frente ao Parlamento espanhol contra a chamada “Lei da Mordaça”: a plataforma “No somos delito (Não somos crime)” exibiu na entrada da assembleia, em Madrid, vídeos enviados de todo o mundo e transformados em hologramas contra a polémica lei aprovada pelo governo conservador que restringe o direito aos protestos em Espanha.

Milhares de pessoas de todo o mundo — incluindo 400 portugueses, segundo a agência Lusa — participaram numa manifestação contra uma nova lei espanhola que restringe o direito à assembleia e ao protesto em espaços públicos. Parecia e soava como uma manifestação tradicional: os participantes desfilaram na rua; cartazes de protesto pairavam sobre o cortejo; ouviram-se palavras de ordem. Só que nenhuma dessas pessoas estava fisicamente presente no local; a sua imagem foi projectada por holograma.



Esta plataforma reivindicativa junta mais de 100 movimentos de cidadania e organizações, como a Greenpeace e o SOS Racismo, que se opõem à nova Lei Orgânica de Segurança dos Cidadãos, aprovada a 26 de Março com os votos únicos (181) do partido do Governo, o Partido Popular, e rejeitada por toda a oposição (140 votos contra). Os seus opositores consideram-na uma ameaça aos protestos políticos e ambientais no espaço público. Prevê multas entre os seis mil e os 30 mil euros para manifestações públicas — em frente do parlamento, por exemplo — que não sejam previamente autorizadas. A lei entra em vigor a 1 de Julho.

A aprovação da reforma do Código Penal e da Lei de Segurança Cidadã, desencadearam a vaga de protestos em que também se envolveram o Tribunal Constitucional e instituições internacionais como a ONU e do próprio  Comissário dos Direitos Humanos do Conselho da Europa 

Alguns dos pontos mais controversos foram desaparendo ou suavizando-se, à medida que avançou o processo de aprovação, mas o texto principal, que toda a oposição critica, mantem a principal objeção: converte em sanções administrativas sem intervenção judicial 
o que antes eram sentenças decididas em tribunal. 
. 

Alguns grupos defendem que esta é a pior notícia para a democracia espanhola desde a era de Franco.

A nova lei cataloga as infrações de leves a muito graves:

Na teoria, a lei prevê uma série de sanções contra numerosas formas de protesto civil, por mais diversas que sejam. A lei interdita, por exemplo, sob pena de pagamento de uma multa que pode chegar a 30 mil euros, todo o ultraje contra a bandeira e outros símbolos do país. Proíbe, ainda, as manifestações no perímetro de instituições públicas como o Senado, ou a Câmara de deputados. Vários especialistas analisam essa legislação como uma resposta aos movimentos separatistas e, mais precisamente, aos movimentos cívicos que pedem a independência de uma das 17 comunidades autónomas do Reino da Espanha, a Catalunha.
A coerência desta análise decorre da temporalidade da proposta da lei. De facto, o ministro do Interior apresentou a lei no dia 29 de novembro de 2013, ou seja, depois de vários meses de grandes mobilizações a favor da independência catalã. Note-se que os protestos dos cidadãos se amplificaram bastante nos últimos anos, em relação, por exemplo, à gestão da crise pelo governo.



A nova legislação estabelece 31 tipos de infrações “graves”, que acarretam o risco de pagamento de 30 mil euros de multa. Sete tipos de infrações, ditas “muito graves”, conduzirão ao risco de multa até 600 mil euros. Essas infrações visam, na prática, perturbações da ordem pública em eventos desportivos, ou manifestações durante a “jornada de reflexão”. A expressão “jornada de reflexão” corresponde a um lapso de tempo definido com antecedência, em época de eleições, de modo a permitir aos cidadãos refletirem sem nenhuma influência externa. Uma jornada de reflexão que justificá a penalização de manifestações nesse período. 

Duas convicções surgiram no pensamento contemporâneo sobre o jornalismo: a primeira é que a Internet é a força que mais tem revolucionado os meios de comunicação. A segunda é que a Rede e as ferramentas de comunicação e informação que gerou, como YouTube, Twitter e Facebook, estão a transferir o poder dos Governos para a sociedade civil e os bloggers, cibercidadãos ou os chamados “jornalistas cidadãos”. É difícil não estar de acordo. Entretanto, estas convicções escondem o facto de que os governos estão a ter o mesmo sucesso que a Internet na hora de invadir os Media independentes e condicionarem a informação que chega à sociedade.

A Internet pode redistribuir o poder. Mas é ingénuo pensar que existe uma solução tecnológica simples para aqueles governos e dirigentes que estão decididos a concentrar o poder e dispostos a fazer o que for necessário para conservá-lo. A censura vai crescer e diminuir à medida que a inovação tecnológica e o desejo de liberdade se choquem com governos empenhados em controlar os seus cidadãos, começando pelo que lêem, vêem e escutam.