sábado, 7 de março de 2015

Balthazar-Gremlin


O meu rei mago Balthazar, é um gremlin

Balthazar-Gremlin não é um gato normal. Por exemplo, não “faz” patas de veludo para que ninguém o oiça porque não ouve. Não dorme como os outros gatos, com uma orelha sempre alerta para a passagem de um ratinho ou o piar de um pássaro. Simplesmente, Balthazar-Gremlin nem vai ao jardim sozinho. Aprendeu (ou ensinou) ir com uma trela para poder subir às árvores. A primeira vez foi uma descoberta:... as outras todas também, porque Balthazar não memoriza. Faz uma asneira, é punido... e repete-a vezes sem conta ao dia, à tarde e à noite. O pior, é que teme algumas expressões humanas de afecto porque “sabe” que repete as asneiras mas nunca sabe porque vai ser punido. E morde. Morde furiosamente como um ‘gremlin’. Estica as orelhas para o exterior horizontal e atira-se como um louco voador rumo a um pé ou uma mão na quietude da tarde, na tranquilidade do serão. Deixa cicatrizes e incomoda os vizinhos. Parte vasos para retirar as plantas, abre armários para subir prateleiras e saltar para o chão... excita-o a vibração do solo quando as patas batem com força, suportanto o peso do corpo cada vez mais forte e pesado. As portas dos armários são de madeira e o seu abrir e fechar ecoa no andar de baixo neste aparthotel termal... os vizinhos importam-se e queixam-se... e o gremlin adora... que fazer? Preparar o livro de cheques...
E é tão lindo! Branco como um diabinho angélico acabado de cair de um altar aos trambolhões! Já não é tão pequenino como no dia em que foi rejeitado pela mãe e encontrado na estrada em frente à redacção de um punhado de jornalistas generosamente loucos. Pensaram que era uma gatinha (era tão linda, tão linda) e a jornalista italiana que descobriu “o ser”, baptizou-o de Fortunella!
Neste preciso momento atirou-se contra um banco, debaixo da mesa do computador, que ia estilhaçando o joelho da autora, quando deslizou subitamente. Depois de cinco minutos fechado na casa de banho para acalmar, o que fez ele quando foi acariciado e liberto? Mordeu, como um furioso, a mão que o acolheu.
“Okidoki” (como concorda Piotr Fyodorov, o querido jornalista russo que não entende para que servem os gatos se não os comermos, e o disse à chegada do personagem da história).
Balthazar é um ‘gremlin’ e não um gato: é surdo, hiperactivo, foi rejeitado porque a mãe gata percebe muito mais de selecção natural do que os humanos. Os olhos foram azuis durante dois meses e, depois... bem...a íris é negra, assente sobre um círculo de cor verde e o resto cor de mel. Quando “vira” gremlin, os olhos dele são completamente tomados pela pupila ficando negros como um poço sem fundo... um horror. As orelhas baixam, a cabeça gira à procura da audição que não chega de lado nenhum, os dentes afiam como os da boca de um cão raivoso e atira-se contra a presa por maior que seja, e melhor se for a ‘dona’. É sempre uma pobre alma piedosa...que repensa, depois, a eutanásia como único fim digno para tão pouco nobre besta.
Violência doméstica é pouco para caracterizar o que Balthazar abusou da mão que lhe deu de comer. Gostou tanto que a mordeu duas ou três vezes por dia durante sete meses. Aos três meses, já Balthazar abusava, também, do parceiro sexual de peluche umas seis vezes ao dia. Mas a veterinária não o podia castrar antes dos seis meses. Depois de “feita a coisa”, Balthazar goza apenas uma ou duas vezes por dia... uma anormalidade excepcional de um dos“handicaps” deste gato assassino.
Interdito de inter-actividade com outros gatos pelas ‘nuances’ comportamentais que a sua surdez hereditária acarreta foi, no entanto, sujeito a algumas condescendências por parte da “dona”. Os seus interlecutores gatos é que não perceberam. Quando lhe rosnavam, Balthazar-Gremlin brincava com eles, o que achavam ser de um snobismo estranho. Quando já se cansavam de tanto agredir, Balthazar deixava então de brincar e mordia-lhes o rabo, as patas e o focinho. A coisa acabava com uma retirada estratégica provocada pelos humanos.
Não é um gato popular, Balthazar.
Essa coisa de se atirar para os lavatórios e banheiras quando a água corre, causou inúmeros mal-entendidos. É que afinal, Balthazar-Gremlin não gosta especialmente de tomar banho (mordeu tantas vezes quanto o quis demonstrar); o que gosta é de sentir a vibração da água a passar nos canos, nomeadamente quando ela corre para a banheira, mesmo com sais de banho e outras anormalidades. Balthazar patina horrores até sair de novo com o pelo molhado e o sangue da dona a manchar o esmalte branco... e o pelo dele, claro...normalmente imaculado.
Balthazar tem, desde a nascença, as orelhas cor-de-rosa, o narizinho rosa, e mesmo as almofadinhas das patas (mortíferas) de um rosa diáfano.
Uma vez por dia, evita ser lançado do sétimo andar pela dedicada amiga humana. Tão dedicada, mas penalizada por não ter entendido os desígnios da mãe do seu querido Balthazar: uma selecção natural, simples, rápida.
Ele deve ter mordido a mãe e os irmãos até ser expulso da fraternidade e ter sido posto com uma estúpida dona com intenções de o “acolher”. Que animal! A dona, claro... porque ele já tinha sido condenado à nascença e “não acolhia nada”.

O quarto e o mundo

Estou num parque de diversões sem a minha mãe e os manos. Há um bicho gigante debaixo de uma coberta mas eu não me importo desde que ele não me incomode. Trouxe-me para aqui quando a mamã me levou a passear. Mergulhou-me na água mas eu engasguei-me. E acabou por perceber que eu queria a pipeta. Hás uns meses que bebo água pela pipeta. Já como, mas bebo pela pipeta. É um direito que me assiste. Tenho um pratinho de biscoitos e quando o bicho acorda tenho direito a coisinhas de carne molhadas e boas. Não gosto que o bicho se esconda nas cobertas e mordo-lhes os pés. Com muita força.
O tempo não passa e há umas caixas. Estrategicamente, salto de uma para outra, para a mesinha grande e estendo-me nos ‘sprints’ para fazer cócegas dentro da barriga. Não me viro sequer quando o bicho acende as luzes e me visa com os seus olhos negros de ódio. Não sei o que é isso, o ódio. Escondo-me e espero que o bicho feche os olhos e logo a seguir... lá está ele de novo a atirar-me sapatos contra o focinho. Mordo e mordo até que ele perceba que eu não sou daqui e tenho o direito de fazer o que quero se ele me obriga a continuar aqui!
Faltam-me os pelos dos manos a afocinhar na mamã e eu a mordê-los todos.
- Mamã! Onde estás?
Passam os meses e tenho apenas a Josefina (cachorra) de peluche e o Tico (gatonço), um miserável que está cada vez mais pequeno. Não percebo. A Josefina também está a encolher e não gosto nada disso. As minhas patas crescem enormemente. Porque é que eles não crescem comigo?
Mordi os fios da ‘caixa de cor que mexe’ na sala, parti dois vasos e mordi o bicho todas as vezes que pude. E o bicho meteu-me numa caixa. E vamos a algum lado.
Vá lá que a Josefina e o Tico estão comigo. Sinto a alcatifa da caixa a balançar. Que bom! Estou contente e faço umas reviravoltas com os outros dois. O bicho não gostou. Meteu-me numa banheira de uma sala adormecida. Mordi , porque o bicho não aprende que não deve incomodar. E voltei à caixa até a vibração recomeçar.
Como presente, depois de tão gloriosa viagem, apresentaram-me um tal “17”, preto e branco, pachorrento. O parvo soldado metia-se em cima da cadeira à saída do meu quarto, no hall de cima, a dar ao rabo como que a mostrar que era tudo dele. Claro que lhe mordi o rabo sempre que pude até passar eu para cima da cadeira e ele para debaixo.
O meu bicho não percebeu, bateu-me com um jornal e fechou-me no quarto.
Virei tudo o que pude, parti porcelanas e desci da varanda até ao jardim para entrar pelo ‘chalet’ e mostrar que eu também me sei defender e voltar.
O bicho abraçou-me, “estrafugou-me”de mimos, quando regressei, mas não percebeu o resto e fechou-me um pouco mais.
Claro que, com o tempo, fui sempre trepando mais prateleiras, mesmo as da cozinha, com uma enorme variedade de pratos, e atirei-me sempre de mais longe e mais alto para que as minhas ilustres patas libertassem mais força anímica no salto.
Mas, voltando atrás, havia ainda uma gata com a qual evitei cruzar-me mais do que uma vez. Posso ser surdo e um pouco “aéreo”, mas não sou parvo. A Babe é a caçadora de serviço e a chefe; não me meto com ela. Não porque não queira... mas porque o bicho não deixa.
Depois, trouxeram a minha casa uma outra a que chamavam Lucia. Apaixonei-me profundamente e demonstrei-lho, mordendo-a tantas vezes quanto consegui. A tola dava-me com a patita e fazia umas caretas que não entendi. Corria pela casa toda e eu atrás... ficou tão magrita que deixei de gostar dela. E depois o bicho levou-me a passear e deu-me um novo hotel para esquiar do topo dos armários ao espectacular chão de madeira brilhantemente encerado!
Magnânimo, condescendi, no entanto, a deixar que o bicho me passasse uma corda no pescoço e na barriga que me puxa pelas costas. Não tenho medo. Aliás, desmonstrei com os dentes, mais algumas vezes, até que me encontrei, um pouco tonto, nesse paraíso de múltiplas descobertas verdes que me fazem vibrar as narinas e estes trombones que tenho na cabeça com os pelos que me tremem até ao redor dos olhos.
Foi o início de uma longa descoberta.
Ainda hoje aprendi a fincar as unhas nas árvores e, aos saltos, abraçar todo o tronco até aos mais altos ramos. Tenho um pouco de receio quando olho para trás e sou obrigado a descer. Mas o bicho está lá e abre-me os braços num abraço que aceito– mais vale uma plataforma que um mergulho do sétimo andar.

............
Epílogo

É difícil desculpar-se perante os vizinhos e pagar indemnizações por causa de um selvagem, que nem sequer é bom. Apenas custa dinheiro e não devolve um carinho.
Mas a generosidade é isto. Talvez imaginar o que o outro faz ali e o que gostaria de ter sido.
Balthazar-Gremlin não é um gato inteiro porque não se aculturou como gato e não tem humanidade nenhuma. É um gato assassino, sem verdadeiramente matar, é um gato menino, sem verdadeiramente miar. ‘Grita’ porque não mede os décibeis quando fica sozinho. Como todos os meninos, Balthazar-Gremlin sente saudade da mãe ... só que morde em vez de amar um miminho. É a sua fúria que provoca esta imensa necessidade de o proteger. Salvo aquela “uma vez por dia em que se sente a necessidade de o atirar do 7º andar”.
Mas, tal como na guerra, todos têm medo. Coragem é: lutar contra isso.
Em relação ao Gremlin: é um desespero. Coragem é: vencê-lo.

post scriptum:

Dretemmmmmtmeepummm....
uupss. Acho que fiz asneira. Quem me tira daqui????

Maria João Carvalho
&
Balthazar-Gremlin



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Rotativas está de volta

O blog Rotativas retoma o seu espaço, não diariamente, mas com assiduidade. Para obrigação já basta a de informar diariamente, analisar, fazer textos para antena, web, etc.  Este é um espaço mais íntimo: só cá vem quem quer, pelo puro prazer da partilha da escrita ou da fotografia.

Peço desculpa aos meus amigos pelo afastamento. Mas tive mesmo de fazer um interregno.

Até sempre...fica a foto do meu jardim no microparaíso de Lyon, ao amanhecer.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Morreu a Duquesa de Alba

Maria João Carvalho para a euronews e rotativas

Cayetana Fitz-James Stuart, Dona Cayetana ou simplesmente Duquesa de Alba e de Berwick. Vários nomes para se referir a aristocrata com mais títulos de nobreza da Europa, cerca de meia centena, que esta quinta-feira nos deixou, aos 88 anos de idade. Morreu no seu venerado Palacio de Dueñas, rodeada pelos seis filhos e pelo terceiro marido, Alfonso Díez. Por sua prórpria vontade, deixou o hospital de Sevilha (padecia de uma pneumonia e de uma arritmia cardíaca) na terça-feira, “para ir morrer junto dos seus, no Palácio” – foi a terceira mulher a dirigir a Casa de Alba em mais de 500 anos.
Dona Cayetana nasceu em 28 Março de 1926, no Palacio da Líria, em Madrid. É filha de Jacoco Fitz-Stuart y Falcó, o Duque de Alba, e Maria del Rosario de Silva e Gurtubay, que morreu quando Cayetana tinha apenas 6 anos, uma circunstância que iria marcar para sempre a sua agitada vida. Em 1953 o pai morreu também, e Caytana converteu-se, aos 27 anos, na décima oitava duquesa de Alba. Estudou em Paris, depois de deixarEspanha, com a chegada da República, em 1931. Também viveu en Londres, mas o seu verdadeiro lar era em Sevilha, onde tinha a mais preciosa das suas belíssimas probriedades: o Palácio de Dueñas.
Considerada uma mulher adiantada ao seu tempo, a afilhada de Afonso XIII converteu-se na XVIII duquesa de Alba depois da morte do pai, dedicando grande parte da sua vida à manutenção e conservação do património da Casa de Alba.
Tinha um património avaliado em cerca de 3.000 milhões de euros – segundo a revista Forbes – que inclui palácios, castelos, campos e terrenos agrícolas, investimentos em bolsa, obras de arte e outros bens.
Monárquica e defensora da Coroa, amiga de Juan Carlos e Sofia e “contente” com a chegada de Felipe VI ao trono, a duquesa sempre foi uma mulher apaixonada pela vida.
Doña Cayetana era 20 vezes Grande de Espanha, tinha uma lista de títulos mais vasta do que qualquer outro aristocrata na Europa. Era Condessa, Marquesa e Viscondessa, além de ser a filha predileta da Andaluzia e filha adotiva de Sevilha. Acima de tudo, para todos, era a
Apesar da linha descendente da duquesa espanhola ser de um filho ilegítimo, Jacobo Fitz-James Stuart, Cayetana é considerada uma descendente dos Stuart, a principal casa real escocesa.
Considerada uma mulher adiantada ao seu tempo, a afilhada de Afonso XIII, dedicou grande parte da sua vida à manutenção e conservação do património da Casa de Alba.
Casou-se três vezes: a primeira, com Luis Martínez de Irujo, com quem teve seis filhos. Martínez de Irujo morreu em 1972. Casou-se depois com o jesuíta Jesus Aguirre – num casamento que suscitou muitas conversas na alta sociedade pelas ‘atrevidas’ poses fotográficas – e, finalmente, com Alfonso Diez.


Com a morte de Cayetana de Alba desaparece uma mulher que representa uma época sem precedentes, com figuras de grande relevo histórico, adiantam os órgãos de comunicação soial espanhóis.
Em criança brincou com a rainha Isabel II de Inglaterra, conheceu Churchill, Onassis e os Kennedy e recebeu em sua casa Sofia Loren, Claudia Cardinale e Audrey Hepburn.
Uma das figuras mais reconhecidas da nobreza e do ‘jet-set’ espanhol, Cayetana sempre foi distinguida pela forma como se relacionava com os cidadãos de Sevilha e do resto de Espanha, seguindo um lema que ela própria defendia: “viver e deixar viver”.
María del Rosario Cayetana Paloma Alfonsa Victoria Eugenia Fernanda Teresa Francisca de Paula Lourdes Antonia Josefa Fausta Rita Castor Dorotea Santa Esperanza Fitz-James Stuart y de Silva Falcó y Gurtubay ou, simplesmente, Cayetana de Alba disse sempre ter tido uma vida “vivida com intensidade, como se não houvesse amanhã, gozando sempre o máximo”.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Armistício: a décima primeira hora do décimo primeiro mês de 1918


No 11° dia, à 11a primeira hora, do 11° mês, terminou a I Guerra Mundial.
No entanto, este fim das hostilidades já tinha sido visionado um mês antes quando, a 29 de Setembro, o Comando Supremo do Exército Alemão informou o Kaiser Guilherme II de que a situação não tinha solução.

Entre 29 e 30 de Outubro, os marinheiros do porto de Guilherme, revoltaram-se e a sua revolução espalhou-se por toda a Alemanha, uma república foi proclamada a 9 de Novembro e o Kaiser abdicou. A Chancelaria foi entregue ao social-democrata Friedrich Ebert.
No dia 8 de Novembro, uma delegação alemã chefiada por Matthias Erzberger atravessou a Frente no norte da França e dirigiu-se para um local secreto na floresta de Compiègne, era a carruagem de comboio privada do marechal francês Ferdinand Foch, o representante alemão entregou os termos da rendição exigidos pelos aliados e deu à delegação alemã, um prazo de 72 horas para aceitar. No terceiro dia Foch regressou à carruagem para verificar se o Armistício estava assinado. Estava.
O armistício que na prática significou a rendição da Alemanha, não significou o fim da guerra, mas a cessação das hostilidades. O fim da guerra só foi formalizado a 28 de Junho de 1919, precisamente cinco anos após o assassinato do Arquiduque Francisco Fernando, com a assinatura do Tratado de Versalhes.

No entanto, a morte do Arquiduque, em Sarajevo, a 28 de junho de 1914, apenas culmina um período de crescente tensão entre as grandes potências europeias, alimentado por ideologias nacionalistas e militaristas, sendo o acontecimento que faz despoletar a Primeira Guerra Mundial. A Guerra deflagra nos primeiros dias de agosto de 1914, e rapidamente se mundializa, assumindo tal dimensão e brutalidade, que ainda nos nossos dias é designada, em vários países, por A Grande Guerra.





Durante esta guerra, estima-se que morreram cerca de 10 milhões de pessoas, sobretudo na Europa, e ficaram inválidas mais 20 milhões.A Grande Guerra atingiu uma escala e intensidade até então desconhecidas. Pôs em confronto mais soldados, provocou mais mortes e causou maiores destruições materiais do que qualquer outra guerra anterior. Provocou milhares de prisioneiros e desaparecidos, arrazou cidades e campos em toda a Europa.

Mas é o armistício de 11 de novembro de 1918 (há 96 anos)  que assinala a rendição da Alemanha e o fim da Primeira Guerra Mundial. O dia 11 de novembro tornou-se o dia da lembrança em homenagem aos soldados.

O presidente Hollande, no seu discurso, vai lembrar o caráter rico destas cerimónias do centenário da guerra em França e tentar tirar lições da história para o futuro. Hoje, as nações dispõem de meios para resolver diferendos através do diálogo, quer os utilizem ou não.

O ponto alto das cerimónias deste dia é a inauguração do Anel da Memória na necrópole de Notre-Dame-de-Lorette, em Ablain-Saint-Nazaire, por François Hollande, presidente da República francesa. Com intervenções ao vivo de vários pontos da linha da frente da Grande Guerra. Mas, apesar da vontade do presidente francês, a dimensão internacional permanente que pretendeu dar a quatro anos de comemorações não tiveram eco no resto da Europa - vão estar presentes apenas sete ministros, entre os quais o português. O Desembarque já celebrou suficientemente a união de esforços para defender a Europa. Países como Portugal prefriram investir em Bibliotecas digitais do ministério da Defesa os documentos e cartas dos veteranos da I Guerra Mundial para consulta de todos. A Liga dos Combatentes fez a cerimónia no dos 96 anos do Armistício e dos 40 anos do fim da guerra ultramarina, no domingo passado.

O monumento Anel da Memória presta homenagem a soldados mortos durante a I Guerra Mundial e tem a envergadura requerida pelas homenagens do centenário. É inaugurado neste dia com tanto sentido para a Europa e para o mundo, em Pas de Calais, onde se reunem numa fraternidade póstuma o nome de 580 mil soldados escritos em placas de aço de 3 metros de altura, por ordem alfabética, independentemente da sua religião, nacionalidade ou origem. Entre estes, estão o nome de 2260 soldados portugueses.

Em Portugal foram mobilizados para a guerra nas frentes europeia e africana mais de 100 000 homens. O saldo do conflito foi de 38 000 baixas: cerca de 8 000 mortos, 16 607 feridos, 13 645 feridos e desaparecidos.

A participação de Portugal no conflito revelar-se-ia uma das opções mais controversas do regime republicano. A necessidade de salvaguardar o património colonial foi uma das razões invocadas para legitimar uma beligerância que, desde a primeira hora, levantou dúvidas e receios. Muito embora os territórios africanos de Portugal tenham sido palco de várias confrontações com a Alemanha logo em 1914, é em 1916 que os dois estados entram formalmente em guerra um com o outro. O apresamento dos navios germânicos em portos nacionais, em março desse ano, a pedido da aliada britânica, ofereceu aos elementos intervencionistas da política portuguesa o pretexto para enviar um corpo expedicionário para a Frente Ocidental. Essa participação era vista como essencial para afirmar o prestígio da República perante os seus aliados tradicionais e assegurar a Portugal uma posição de força na Conferência de Paz.

Portugal também assinala este século em que eclodiu o conflito, com a pulblicação, pela Biblioteca Nacional de Portugal, do Diário da Grande Guerra: testemunhos portugueses, no qual, através de uma cronologia atualizada mensalmente, até novembro de 2018, poderemos encontrar as notícias da guerra nos jornais diários de há 100 anos, postais e cartazes da época, testemunhos de um conjunto de portugueses que viveram de perto o desenrolar dos acontecimentos ao longo de 1914-1918, enfim, aquela que foi a visão portuguesa de um conflito que determinou uma viragem no mundo.

Ao mesmo tempo, a BNP empreende a tarefa de digitalizar e disponibilizar na Biblioteca Nacional Digital toda a documentação da época relacionada com a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial. A coleção A Grande Guerra inclui livros, imprensa, iconografia, mapas, música impressa e espólios - com principal enfoque nos testemunhos dos portugueses que viveram de perto aqueles momentos da história.

A comemoração do centenário da Grande Guerra é um momento de unidade nacional. Ao dar o pontapé de saída para as comemorações de 14-18, o chefe de Estado insistiu sobre os ensinamentos a retirar da Primeira Guerra Mundial, que deve recordar a força de uma Nação quando esta está reunida. Depois de ter evocado os valores da França e da República, o chefe do Estado francês  recordou igualmente "a imperiosa obrigação de uma Europa unida que possa garantir a solidariedade e a paz".

Desconseguir a Paz:

Mas o que é certo é que a paz é um fracasso, desde meados dos anos 20, como muito bem afirma o historiador Jay Winter ao Le Monde de hoje (11/11/2014).  O Professor de Yale diz mesmo que as consequências internacionais múltiplas são ainda sensíveis atualmente.
A paz não teve efeitos primeiro, porque a Alemanha e a rússia foram excluídas da Sociedade das Nações , assim como a não participação dos Estados Unidos. Foi um erro exigir reparações de guerra à Alemanha, com natureza punitiva, que levaram à destabilizaçãoda república de Weimar e tornou inevitável a revisão do Tratado de Versailles. Também foi evidente a incapacidade de organizar uma estrutura de estabilização económica europeia à escala euroepia, o que acabou por dar origem à Grande Depressão de 1929. A partir do crash, os nazis fortaleceram-se e conseguiram reforçar o peso eleitoral. O caminho de conduziu Hitler ao poder passou por essa crise mundial.

Quanto à Turquia, no campo dos vencidos, os termos do Tratado de Sèvres foram muito duros. Confiavam ao Reino Unido, à França, à Itália e à Grécia, a administração de certas zonas da Turquia europeia e de Anatólia. Durante quatro anos, Mustafa Kemal, o grande Ataturk da República laixca, recolheu os destriços do antigo exército do Império Otomano e conseguiu crair uma força de combate portene para fazer retirar as forças de ocupação aliadas. Mas a assinatura do novo Tratado de Lausanne, em 1923, que substituiu o de Sèvres, autorizou a Turquia e a Grécia a procederem a uma "troca de populações", segundo a qual milhões de gregos de Anatólia emigarram para a Grécia e para a Bulgária, milhões  de muçulmanos originários dos Balcãs instalaram-se na nova Turquia. A limpeza étnica estava legitimada pela comunidade internacional. A nova república sentia-se menos fragilizada sem a presença grega e arménia do Império Otomano e daí ser legitimamente responsável pelo genocídio arménio, entre 1915/16 e das vitórias militares armadas sob comando de Ataturk. Logicamente, o Tratado de Sèvres era letra morta.

A criação dos novos Estados , que eram a Polónia, Áustria, Hungria e Jugoslávia, suscitou conflitos incessantes por causa das novas fronteiras. A Hungria perdeu dois terços do território...enfim, em 1920 a paz era considerada um fracasso.

A guerra deu origem a quatro conceitos inegáveis (Jay Winter, Yale University): comunismo, pacifismo, liberalismo e o movimento dos antigos combatentes, com uma atividade transnacional fundada sobre a autoridade moral  dos que participaram e foram feridos. A militância anti-guerra, com a ideia de que os Estados devem renunciar a uma parte da soberania em nome da segurança coletiva constitui a origem da união Europeia que, já depois da II Guerra Mundial, mete em obra o trabalho feito entre as guerras dos antigos combatentes.

Fontes: Le Monde, Biblioteca Nacional Digital - Diários de Guerra


Maestro Virgílio Caseiro

Uma entrevista do meu baú, na Figueira da Foz para O Figueirense - não revista agora

Entrevista ao Maestro Virgílio Caseiro – a humildade na excelência


O Maestro Virgílio Caseiro é um lobo do mar que desfia memórias, não através de fios de pesca ou contos de encantar, mas com a batuta de um sábio. Não é tão velho como ‘os mais velhos’ o são na África das tribos com respeito pelas cãs. Nasceu em 1948 em Ansião.
Assumiu a responsabilidade artística da Orquestra de Câmara de Coimbra em 2001 – a partir de 2005, Orquestra Clássica do Centro – sendo seu Maestro Titular.
No dia 3 de Agosto, apresenta um programa ímpar no Palácio Sotto Maior da Figueira da Foz.


Maria João Carvalho para o Figueirense – É um homem de muitos portos e de muitas naus… que faz aqui?
Maestro Virgílio Caseiro - É verdade que sim…a grande vantagem de ser velho – entre os vários inconvenientes que tem – é essa possibilidade que vamos tendo de acumular vida acumulando recordações e, de recordação em recordação, juntamos umas com as outras e acabamos por construir um ‘ideário’ muito nosso, muito pessoal que faz parte de todos e não faz parte de ninguém, com o qual nos sentamos à mesa (nós próprios), com a companhia de nós próprios, construindo projectos que vão nascendo e que nós vamos levando por diante e nos fazem sentir bem com eles. Isso é a universalidade da idade… não é?
E não vejo inconveniente nenhum em ser velho e sinto todo o encanto em poder desfrutar estes anos ao abrigo daquilo que muitas vezes me perguntam e é “quantos anos tenho” e eu digo que “tenho exactamente aqueles que me faltam para morrer”.
E é na conjugação sistemática destas duas verdades que eu, despreocupadamente, vou construindo o meu mundo musical, com a maior seriedade possível, tentando produzir um produto acabado que seja de superlativa qualidade, quase nunca conseguido, e ainda bem, porque a mediocridade daquilo que eu queria que fosse superlativo dá-me razão de ser para o dia de amanhã.
E, portanto, vou tendo este encanto e esta dinâmica de estar comigo e com os meus projectos … possivelmente, do pouco que tenha feito, alguma coisa se pode aproveitar em prol das comunidades da Zona Centro, que é a zona onde, prioritariamente, milito, porque também defendo que não faço falta nenhuma nem em Lisboa nem no Porto… lá há muita gente… há muita gente a poder fazer e eu acho que as pessoas devem ter a lucidez do que valem e para onde caminham e depois devem saber escolher o local para viverem de acordo com o valor que têm e da expectativa das comunidades receptoras. Ou seja: o Bernstein de Nova Iorque era o Bernstein de Nova Iorque e, claro… não podia sair de Nova Iorque porque se saísse ficava subaproveitado – ele estava ajustado à expectativa de Nova Iorque. Eu, por isso, continuo em Coimbra e não faço falta em Lisboa… e no dia em que a expectativa de Coimbra ou da Região Centro – Figueira da Foz… Viseu… - for superior à capacidade de resposta que eu tenho …pois acredite que eu vou deslocar-me para a Pampilhosa da Serra ou de outra terra qualquer, onde eu possa ser o meu Bernstein, à minha dimensão
M.J.C - O que escolheu para trazer à Figueira?
V.C.- Vimos a este espaço (Palácio de Sotto Maior) a convite da organização, no dia 3 de Agosto, e vamos aproveitar uma clareira entre árvores centenárias para, ao fim da tarde, por volta das sete horas, fazermos um concerto com três cambiantes fundamentais: a primeira: o colorido da orquestra, em que a orquestra vai ser solista… e… depois… outros temas… vamos trazer obras de Coimbra, concretamente, guitarradas de Coimbra, feitas por guitarra portuguesa, acompanhadas por orquestra, e compostas, ou recompostas por compositores que, eu penso, serem de primeira água no panorama composicional português! Estou a lembrar-me do Henrique Carrapatoso, e, exemplo de Sérgio Azevedo e do (infelizmente já desaparecido), Zé Marinho… estou a lembrar-me de um compositor de Coimbra, várias vezes premiado, Zé Firmino Morais Soares… portanto, vamos fazer algumas obras para guitarra portuguesa e para orquestra.
E, finalmente, a terceira vertente é a de temas de canção da zona centro e coimbrã, a que eu não vou chamar fado porque não serão fados, são canções… mas de autores conhecidos: de Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, que vão ser tocados pela orquestra e cantados por um tenor, que começa agora a despertar na Zona Centro e começa a dar muito boa conta de si, o tenor Nuno Silva, que vai estar connosco para cantar esses temas.
MJC - Pode contar um pouco da história desta orquestra?
V.C. – A orquestra tem a história que todas as orquestras têm neste país. Uma vivência debilitada, uma vivência sempre em contínua possibilidade de desaparecimento mas que, persistentemente, queremos levar por diante.
Apareceu em 2001, pela minha mão e pela mão da actual presidente da Direcção, a Drª Emília Martins – a quem se deve toda a honra do facto da sua sobrevivência, porque tem um dinamismo brutal e uma capacidade de resistência à frustração que eu admiro e que a minha idade (mais uma vez) já não me aconselha a ter, porque desanimo mais cedo…e fruto disso a orquestra, não obstante não ter vindo a ter nenhum apoio oficial do ministério da Cultura tem vindo, com um orçamento miserabilista em relação às outras orquestras congéneres, a desenvolver um trabalho de militância na Zona Centro, para a qual está vocacionada. E tem vindo a fazer um reportório igual ao que as outras orquestras fazem, simplesmente com o orçamento que temos.
Estou convencido – e nem estou triste por isto nem me estou a queixar – de que as organizações, instituições e associações devem mostrar o trabalho que são capazes de fazer. E depois esse trabalho tem de ser de tal forma objectivo e tem de emergir com tal força no tecido cultural onde está inserido que, depois, nem o ministério da Cultura nem qualquer outro tipo de ministério pode fechar os olhos, tem de os abrir. E, nessa altura, eles estarão connosco tranquilamente para nos apoiar. Continuo tranquilamente à espera de que chegue o meu dia para que isso chegue a uma verdade.
MJC – Porque tem ao peito uma medalha de oiro de D. João IV?
VC – A história desta medalha é como todas as histórias das grandes navegações (risos): o mundo é redondo e as caravelas circundam o mundo…por todas as navegações que fazemos, sejam elas afectivas, cognitivas ou motoras, vamos encontrar portos de abrigo onde nos revitalizamos e onde nos encontramos. Esta medalha, ao fim e ao cabo, sendo do tempo de D. João IV é, digamos, que a lembrança de um porto de abrigo onde encontrei ânimo para outra viagem.


Maria João Carvalho

Jornalista da EuroNews

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Cartel Guerreros Unidos terá massacrado estudantes a mando dos políticos locais

Custa a crer nos níveis de crueldade atingidos pela humanidade. Em todos os continentes. Uma geografia de sangue e a reconstrução de uma história em sentido inverso, rumo ao tempo das cavernas e do desmembramento dos imimigos para os comer melhor, assados ou ao vivo e a cores, crús e frescos.

http://pt.euronews.com/2014/11/04/mexicanos-nao-perdoam-rapto-de-estudantes-e-exigem-que-os-devolvam-vivos/

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Pepe Ledesma Criado...pensar em Pilar es pensar em ti



A praia de Pepe e os versos que ecoam


Ai, Pepe... quem diz agora às ondas

que o sopro dos versos a vibrar

não é dos búzios...

do vento veio numa conchinha de pensamento e memória das tertúlias e doçuras, alfinetadas e gargalhadas, homenagens e viagens, beleza e arte, elegância tanta, elegância tanta!



Ai, Pepe, quem diz áqueles miúdos ali ao pé do mar

Que ainda aqui agorinha estavas a poetar

Salamantino sempre de pés na água da Figueira...

do vento veio, já irmão, já veio/veia da carne da terra alheia

prontinho para a adoptar, a chamar Mãe, Madre

e ter uma casa com um número 13.



Claro que Neptuno e Pilar tudo providenciavam

até ao dia em que Salamanca impôs

todas as faltas dos últimos anos e requereu lá o Poeta

para todo o sempre.

Abriram-se janelas para contar a novidade ...mas para quê?

A Alma do Poeta está na Praia do Neptuno.

Veio do Vento.

Deus poisou-o numa nuvem para que ele fizesse o mergulho característico para a água e a Pilar bater palmas.

É só fechar os olhos, o sol vai baixo. Então? Janta-se onde, peixinho? E Pepe, com aqueles requebros de voz ritmada e meio acastanholada ao vagar das ondas, com a pronúncia solenizada por esse arredondar cálido de sol já posto...e o Poema a elevar-se para lá de nós para lá da areia, a passar a pertencer àquela praia.

Ai, Pepe, ai Pepe, há por aí uma entrada clandestina? Para eu entrar e sair? Têm morrido tantos com o teu valor que eu tocaria lira na nuvem aí ao pé de Deus. Faríamos uma revolução de poetas para que o Mar beijasse aqui esta tua larga avenida... como tu contaste em Brumas e Sombras, que o Poeta Antonio Salvado lembrou na sua Antologia e na homenagem que lhe fizeram os intelectuais ibéricos (em Los dominios de La mirada – a seu tempo a divulgaremos):



Brigadieres de espuma

Acariciam el viento de la tarde,
Sobre el Mondego flota esta canciön
Del tiempo ya perdido.


Histöricos recuerdos
condicionam esta larga avenida
de tristezas donde un pueblo se asienta
aproximando el dolor del hombre.


Opïparas escaseces
hermanan la soledad, el cansancio,
este largo camino de abandono
donde el mar es un triunfo para esperar la muerte.


Burbujas en la niebla
subliman las ausencias, y el olvido
es el rey de la tierra
agazapado en el amor y la esperanya.


Brumas y sombras en la luz
invitan a este gesto dolorido
de componer la arruga
oscurececiendo estas palabras en la noche.

domingo, 28 de setembro de 2014

Liberdade é....

A liberdade dos ocidentais é um conceito egoísta: pode ter a ver com a relva do jardim, as árvores, os animais . meios peluches meios companheiros, e os filhos que servem uma continuação nem sempre pelos melhores motivos.
Pode ter a ver com o melhor e com o pior de nós.
Porque, liberdade, é tecer rumos e indicar caminhos,
Aprendi na vida, nos anos 70 em colégio interno e depois na África, na Ásia,
Liberdade é uma construção suave e tranquila, não tem de ser drástica.
Livre é quem repõe, tijolo a tijolo, um sentido muito seu para essa tal liberdade que não é apanágio dos ocidentais.
Livre é quem pode, escovando os dentes lavá.los com raiz de gengibre e ter o sorriso mais branco do planeta.

domingo, 3 de agosto de 2014

1914- centenário

A I Guerra, Grande Guerra, como lhe chamavam, por nunca ninguém ter visto nada assim, é uma história de nacionalismos que apenas precisava de um rastilho, de mal-entendidos entre chefes de Estado - nomeadamente entre os chefes de Estado Maior das Forças Armadas britânica e francesa. Foi uma guerra fraticida em que os generais, impotentes, julgavam os fracassos em consehos de guerra de 11 horas e executava, os cabos. A França era gerida por mulheres, até ao regresso dos mutilados sobreviventes - mutilados físicos e de alma. Logo que o poder lhes tirou a direção dos negócios e poder sobre a terra e a educação para salvar a sociedade, o poder masculino acartou as mulheres do poder, nomeadamente negando-lhes o voto.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

História da Coroa Real - no Museu da Assembleia da República




A peça é composta por sete arcos fechados que apresentam frisos de pérolas em vulto, convergindo no topo e alargando para a base, rematados em folhas de acanto e intercalados por pináculos de forma ovular. O aro da base é preenchido por sequência simétrica e relevada de losangos, pérolas e óvulos, limitado nas zonas inferior e superior por rebordo convexo. O crucífero apresenta remate canelado e complementado no topo por cruz latina, visualizando-se nesta uma pequena esfera central de onde derivam quatro braços em forma de túlipa. O interior da peça é uma estrutura semicircular e irregular, que recria um forro de veludo carmesim.

A coroa real é o símbolo da autoridade monárquica. Até ao Rei D. Sebastião, ela consistiu num simples aro de ouro com florões, de formato aberto, e inspirada na coroa de duque oriunda da 1.ª dinastia. Este monarca procedeu à sua substituição por uma coroa fechada, pretendendo assim simbolizar a unidade do Estado e do Povo. Desde D. João IV, que consagrou o Reino de Portugal a Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Vila Viçosa, proclamada Rainha de Portugal, os monarcas portugueses deixaram de usar a coroa, sendo a partir daí aclamados. Não chegou aos nossos dias nenhum exemplar de coroa real anterior a D. João VI, e o único que existe, constituído exclusivamente por ouro, foi executado no Brasil, em 1817, tendo sido utilizada posteriormente nas cerimónias de juramento dos monarcas.

Esta peça foi encomendada para a Câmara dos Dignos Pares do Reino, inaugurada em 13 de janeiro de 1867, tendo aí permanecido a encimar o dossel de suporte do retrato do Rei D. Luís até à implantação da República, altura em que foi substituída pelas insígnias do novo sistema político - a esfera armilar com o escudo. Este espaço adotou então a designação de Sala do Senado.