sexta-feira, 4 de maio de 2012

limite

Sonharíamos ser astronautas e seríamos. Ser grandes... e puff, aí estávamos nós com 18 anos mais os irmãos grandes que inventávamos. As canções realizariam as grandezas, os planos, as aventuras de caminho de ferro na Metrópole e no território ultramarino.
Foi-nos prometido, no jardim escola João de Deus, que sonharíamos e fá-lo-íamos porque tudo se faria pelas nossas mãos e pelos nossos desejos.
No colégio de freiras não foi bem assim. Sonharíamos e teríamos de queimar os nossos sonhos com os isqueiros que acendiam os cigarros que nos proibiam de fumar. Nessa época em que era proibido proibir. E estávamos todos proibidos de ameaçar que sonharíamos...
Um dia queimei a saia de uma freira. Um hábito com um diário bem filosófico. Foi ela que lançou o meu diário aos pés e me perguntou se fumava...eu disse que sim (provocação) e incendiei o meu diário de anarquista adolescente na base do hábito de freira.
Não me expulsaram porque chantageei...foi no tempo em que havia respeito pela informação. Deixou de haver. Ninguém tem medo da verdade. Que mossa faz a verdade... a quem importa?
Há os Média, os comunicados de imprensa, as agências. Deixei de ser jornalista e passei a profissional da informação.
Sonharíamos ser os arautos da verdade quando nos deixassem sair do castigo do sotão verde claro do jardim escola. Ser Bombeiros. Ser verdadeiros. Contrariar a multidão que foge e ir apagar o fogo.
Sonharíamos se nos fosse permitido continuar a sonhar.

segunda-feira, 23 de abril de 2012


Era tão fácil! Teoricamente era tão fácil ir ao Afeganistão. Em Sarajevo, o Jorge contou-nos ter passado nove anos no Afeganistão, introduzia-nos no país e enviava-nos aos seus contactos, e eu e o Ibrahim faríamos a reportagem sozinhos. Eu iria vestida de homem, com sobrancelhas e barba postiças, assumindo que era mudo e ajudante. O Ibrahim havia de recorrer a um guia da região, mas estaríamos juntos.
Passámos o fim de uma tarde até a noite ir alta, no Holliday Inn de Sarajevo, a discutir os pormenores, as ajudas, as redes de informação. Nunca admitimos poder estar a ser alvo de espionagem. Sabíamos que muitos mercenários da informação se faziam passar por escritores, jornalistas, humanitários...mas a nós? Que raio importávamos nós e a quem?
Uma ingenuidade fatal.
O plano era, se sobrevivêssemos a Sarajevo, cumprir os contratos respetivos, no Sudão e em Angola, e depois partir juntos para o Afeganistão.
O Miguel-Angel desconfiou. O Arturo, veterano de 16 guerras, já se via a escrever romances em Madrid, pantufinha calçada, o Pinto Amaral só me dizia: "sai daqui, João, não há futuro em Sarajevo, fizeste o melhor que podias..."
E o Jorge insistia, naquela mescla de espanhol e italiano, e eu e o Ibrahim caímos na história que nem uns patinhos. A guerra do Afeganistão só durou 8 anos. Mas quem fazia conta a anos e a tempos de guerra, quando o compasso da respiração era o que mais importava? Manter-se vivo?
Nunca chegou a haver Afeganistão para nós. Eu parti no velho jipe da BBC para Split e depois para Angola, onde sofri um atentado, mas safei-me. O Ibrahim, não. Disseram-me depois em Angola.
Foi o último pedaço de mim que deixei para ir buscar a Sarajevo, um dia, o meu sonho de paz na guerra.
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Sapatinho na mesquita
não há pé p'ra te calçar
voou numa alma aflita
que lia o Corão a chorar

domingo, 22 de abril de 2012

Artifício de amor em tempo de guerra

O pior que pode acontecer a uma alma distraída é a paixão. Amor em tempo de guerra é mais difícil ainda. Não perguntamos, um ao outro, o que vais fazer amanhã, já que não podes vir ter comigo. Perguntamos: vais a Dobrijna com civis, jornalistas ou só com o teu fixer?
E ele, olha-me apaixonado e assegura-me, com beijinhos: eu volto, descansa....mas tu não vais sair, está bem?
Claro que vou, claro que estou aqui para fazer reportagens...mas....verdade verdade, eu não quero perder o meu conforto, o berbere mais lindo do mundo que todos tentaram matar, no Cairo e em Sarajevo. Dou-lhe uns beijinhos arrepenicados pela cicatriz fora, desde o ombro esquerdo ao antebraço até ao pulso, o braço que segura a câmara e que alguém tentou desfazer a tiros.
Sinto-me a pessoa mais desejada do mundo. Quando começou o carrocel diário dos fugitivos para a cave, com almofadas, não fomos. Eu, aliás, não conheço nenhum abrigo, não estive em nenhum...
A minha históra de amor em tempo de guerra não podia ter sido mais bonita, tínhamos os corredores para nós e as casas de banho da CNN, que tinham garrafinhas de água, o tal precioso líquido a que, alguns não davam importância. Lavávamo-nos um ao outro como se fossemos os guardiães da água. E redistribuiamo-la a seguir.
O Ibraihm era o primeiro não ocidental que eu conhecia no sentido bíblico. Não havia nada que eu não gostasse nele, como profissional, amigo, irmão, amante.
Acabamos por nos sentir os donos dos corredores do efifício da TV bósnia, bombardeado continuamente.
Um dia, muito abraçados, retirámos as proteções de uma janela e ficámos a ver as explosões. Como quem vê fogo de artifício. E de repente, uma enorme trovoada criou um tal fait divers que todas as frentes em guerra começaram a responder ao que achavam que era provocação dos outros. Uma louca provocação natural de relâmpagos e trovoada. Nem os guerreiros assassinos estavam prontos para isso.
Eu e o Ibrahim ríamos à gargalhada. Cada trovoada, antes da resposta com as armas, dava direito a mais beijinhos
Foi o bombardeamento mais surrealista da minha vida.

sábado, 21 de abril de 2012

Frio durante o cerco

O frio. Nos mais recondidos espaços da mente, lá estava ele a interferir com as minhas reportagens. O Rodrigues dos Santos comentaria mais tarde, nas suas "Crónicas de Guerra", que eu naquela altura, estava muito sensível ao frio e lembrava-o nos "vivos que fazia", ou nas crónicas pelo telefone.
Naquele dia em que acordei às 7 da manhã, estremunhada, no escritório em frente ao da EBU /tranmissões, com o pessoal todo a chegar coma as almofadas dos abrigos e eu a dormir como se nada tivesse sido, percebi que algo estava errado.
Quando deixamos de ouvir as explosões é porque deixamos de nos interessar, perdemos o medo e podemos, por isso mesmo, morrer a qualquer momento por deixar de tomar os cuidados básicos para sobreviver.
Ainda fiquei mais uns dias, mas percebi,naquele acordar soberbo, numa cama de campanha, com um cobertor militar e uma almofada, que o conforto não duraria muito tempo. A única vez que consegui juntar os três elementos, no cerco de Sarajevo. Faltava um pãozinho quente e um leitinho...mas não se pode ter tudo.
Antes de partir, sem saber como, anda havia de fazer algo com aquele técnico de câmara egípcio. Acabámos por sair os dois, com o câmara do Reverte, o Miguel Martinez, fazer uns shots, voltar e montar, foi um dia chato. Convidaram-me para comer no Holiday Inn e lá fui entrevistar gente gira, como foi o caso do jovem voluntário que levava uma cisterna de água e uma bala atravessou o seu capacete pela nuca sem o tocar. Desmaiou três horas e quando acordou, o maior amigo estava morto. Era um menino. Um bebé de 18 anos que queria salvar o mundo. Ele percebera, como eu ao princípo, que os blindados da ONU não paravam para socorrer civis.
E estava tanto frio.
Regressei à TV bósnia mas não cheguei ao meu escritório. Estavam todos nos abrigos e eu fiz o caminho do meu amigo da CNN até ao telhado. Repeti a senha, a LOZINKA... Abriram-me a porta e levaram-me para a torre de vigia. Foi uma noite violenta.
Na crónica deixei de ter assundo normal: "está muito frio e não há como recolher todos os mutilados que ficam pelo chão na sequências dos bombardeamentos."

Traiçõezinhas em guerra

O mal parecia estar enraizado nos cantos da cidade, em cada esquina, em cada ponto de mira para onde partiam balas contra civis que corriam, que tinham de sair à rua para encontrar os meios necessários à sobrevivência: água, pão, batatas, carvão...e, notícias.
Uns meses depois do início do cerco, já toda a gente desconfiava de toda a gente. Mas eu, nem depois da guerra da Croácia, de Angola, e de uns dias de horror na Bósnia, desconfiava de outra alma humana. Naif. Burra. Para mim, só havia bons e maus: os maus faziam a guerra e os bons sobreviviam e resistiam cultural e fisicamente. Os mais ou menos, por natureza, teriam de andar afastados de mim.
Tínhamos uma pool de informações, onde fazíamos o nosso depósito como se fosse sangue acabado de doar. Custava a vida de muita gente trazer a informação.
Houve um dia em que eu trazia um som que mais ninguém tinha. Apresentaram-me um jornalista japonês e pediram-me para lhe ceder o som e ele dar-me-ia umas imagens incríveis de Dobrinja. Desconfiei, não queria mesmo dar nada a alguém que não conhecia nem pertencia à pool. Mas havia um câmara-man berbere, um egípcio lindo,lourinho, de olhos azuis, exilado em Chipre, que trabalhava para a norte-americana ABC... parecia o Bem em pessoa, todos o escutávamos como a um Cristo, transmitia paz, e pediu para confiar nele, um companheiro da estrada. Eu fui naquele zum zum e entreguei o meu tesouro de sons de bombas e gritos e tudo o que precisamos para testemunhar um ataque e conferir as armas e munições usadas.

Nunca soube o nome daquel japonês: o Kori tinha-nos fotografado, de modo que, mais tarde alguém o identificará.
Claro que ao tentar carregar a imagem percebi que tinha recebido uma cassete virgem de um dos muitos aventureiros sem escrúpulos que sugava o trabalho dos jornalistas e o faziam ir para....lado nenhum ou apenas para o seu pais.
Por acaso, não tive problemas de mais quando gravei uma crónica: não me faltaram bombardeamentos ao vivo para atestar a verdade do que afirmava.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Guerras difíceis

Um dia, a Rádio Renascença quis fazer-me uma surpresa, sem perceber que seria a pior coisa a fazer a uma jornalista numa cidade cercada na guerra dos Balcãs. Eu enviei a minha crónica diária e, no fim, amavelmente, anunciaram-me que tinham a minha mãe e a minha filha em conferência, à espera, para falarem comigo. O pior de tudo é que, as minhas Martas, já tinham ouvido a crónica...
Raciocinei e tentei disfarçar e dizer que estava tudo bem, não me faltava nada, era um prazer saber das coisas da escola da minha filha. E não...não havia problema nenhum no sítio onde estava, no escritório de transmissões da EBU. A filha insistia para eu voltar deprepressa.
Eis se não quando começam os vidros a estilhaçar, as bombas a cortarem as comunicações, o pessoal aos gritos... eu nem tive tempo para sossegar a mãe e a filha, porque a ligação foi abaixo.
Há guerra difíceis e surpresas...não gosto.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A rapidez das decisões

Houve uma tarde especialmente terrível, em Sarajevo. Uma tarde em que quatro miúdos irrequietos foram autorizados a sair um bocadinho das casas, que se tinham tornado refúgios com aparência de bunkers e restos de móveis queimados numa lata no meio das salas ou no forno aberto dos fogões das cozinhas...para aquecer. Brincavam quando foram apanhados pelos estilhaços da mesma explosão de granada de obus.
Reeencontrei-os, mais tarde, ao "passar" (fazer a contagem dos mortos do dia)bem...naquele local muito, muito frio, onde o odor nos gela as narinas e não nos livramos dele jamais.
Levaram-me à cantina dos franceses, na sede da missão da ONU, onde eu fui procurar um qualquer perfume para disfarçar o que se me tinha entranhado na pele. Só havia água de colónia barata, mas não me fiz rogada e untei o nariz e as narinas, o que me ajudou naquele espírito de "ir às compras".
Naquela altura eu vivia de trocas, saíra de Zagreb com medicamentos e cigarros, tinham-se acabado os negativos, o pessoal da televisão dava-me velhos rolos de filme, encontrados nos arquivos e eu tinha de pagar de algum modo.
No casão militar da UNPROFOR, além de rações francesas de combate, que nos deram (as melhores do mundo, asseguro) havia whisky Johnny Walker. Imediatamente, pensei que era o melhor para o pessoal médico e dos Media relaxar. À saída íamos (o Pinto Amaral, como sempre, era o índio das Descobertas)todos lampeiros a saír do edifício, quando rebenta o bombardeamento. Eu já estava do lado de fora. O capacete continuava a ser um belíssimo recipiente, desta vez para levar garrafas de whisky. O Pinto Amaral ainda estava a passar a porta e teve tempo de regressar ao interior.
Quando a artilharia inimiga disparava eu via uma luz para aí a 1200 metros...os sacos de areia estavam encostados á entrada e não havia, em meio segundo, hipótese de retroceder sem partir nada. A uns 300 metros, do lado esquerdo, estava um AV5 estacionado. Com rodas e espaço para eu mergulhar por baixo! E assim foi: pleno salto de gazela com um capacete nos braços a atirar-se e a rastejar para debaixo do AV5.
O bombardeamento parou e eu já ouvia as espanholadas do pessoal!!! Eh...eh...Juanita Camiñante, Johnny Walker, mira la imagen que haces de los reporteros"...ai que desgraça...a TVE estava a fazer um documentário sobre a sobrevivência dos jornalistas durante a cobertura do cerco de Sarajevo, e tinha-me filmado, de um canto do edifício, em pleno voo, a salvar um capacete cheio de garrafas como se fosse ouro, aterrando debaixo de um blindado da ONU.
Uma boa negociação impediu o escândalo.
Acreditem ou não, nunca bebi uma gota do que trouxe da chamada cantina dos franceses. Precisava mais de uma maca e de um cobertor. Como prémio, alguém, durante a noite, levou-me uma almofada ao cantinho do escritório onde, finalmente consegui dormir.
No dia seguinte estava tudo bem. Arturo Perez Reverte continuava a chamar-me Maria La Portuguesa. Eu detestava.Grrrr.

terça-feira, 17 de abril de 2012

A garagem

Por mero acaso, dei com a garagem de uns Heróis sem Tempo que faziam o indizível: ir, debaixo de fogo, às franjas da cidade de Sarajevo, procurar cadáveres e feridos graves. As carrinhas em que o faziam estavam pintadas com umas toscas cruzes e uns crescentes vermelhos (mas a organização Cruz Vermelha/Crescente Vermelho não tinha nada a ver com isto) e os motoristas - pelo menos aquele com quem falei e na carrinha do qual entrei - deviam alimentar-se a adrenalina e tabaco. Pelo chão havia uns recipientes com um líquido de cor duvidosa e uma esfregona já negra...
Como todos, naquela guerra, o homem de serviço era rádio-amador e assim sabia onde socorrer quem necessitava, nos piores momentos. Não fazia um torniquete, não fazia talas, conduzia. Colocava as pessoas dentro da viatura e conduzia o melhor e mais rápido que podia.
Naquele entardecer estava sozinho, as baixas neste conhecido contingente de "suicidas" tinha levado os outros. Não havia macas, nem oxigénio, nem médicos, nem enfermeiros. O cidadão ia "empilhar" o mais que pudesse dentro do veículo, num voo rasteirinho, levava a carga ao hospital e tentava chegar vivo à garagem. Quantos mais conseguisse transportar, quanto mais depressa os depositasse nas urgências do Kosova, mais depressa entraria na garagem para recomeçar o ciclo infernal.
Recebeu instuções enquanto falava comigo e empurrou-me para eu sair. Mostrei-lhe a câmara, implorei-lhe que me levasse para fotografar e gravar mas ele, impertubável, pôs-me fora da carrinha e sublinhou o perigo. Era algo que tinha de fazer sozinho.
Ainda bem que, naquele dia, alguém me disse NÃO.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Presos às peças de artilharia



Ao fim do dia, no Holliday Inn da cercada Sarajevo, Maria João Carvalho estava com ar satisfeito: tinha cumprido o dever, sobrevivido e estava de barriguinha cheia.

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O meu périplo na frente de guerra, uma montanha atrás das casas, foi tão intenso que fiquei convencida que se tinham passado meia de dúzia de dias. Mas não. O Zé Rodrigues dos Santos, quando me entrevistou, uns anos depois, para as suas Crónicas de Guerra percebeu que apenas tinham decorrido um ou dois dias.
Ainda não consigo contar tudo. Fiquei horrorizada por ver soldados amarrados aos postos de artilharia, por terem tentado desertar ou por receio do oficial que tivessem esse desejo. Entrevistei alguns, nas pausas e abriguei-me. Os meus dentes batiam, descompassadamente uns nos outros, a lama humedecera-me as botas, as calças, o corpo todo. A última ofensiva, ao anoitecer, foi muito complicada. Acho que desmaiei de fatiga, encostada à lagarta de um blindado. Um oficial mal encarado, acordou-me da letargia e apontou-me a direção da saída desse inferno. Corri até chegar à ponte romana, desta vez debaixo de fogo. Uma ou outra pessoa corria, num ou noutro sentido, sem me ver. Eu, esticava o dedo, implorava por uma boleia em inglês, alegava que era jornalista...
Uma eternidade depois, um velho Ford amarelo pálido, sujo e amolgado, fez chiar os travões à minha frente. "Televasi? " Sim, sim, sim!
Quando entrei no escritório da EBU alguém estava a empurrar a cassete para o maquinismo que ia enviar uma reportagem que focava a morte e desaparecimento de jornalistas em Sarajevo. Eu estava nessa reportagem, iam dar-me como desaparecida...atirei-me a correr e arranquei-a da máquina, invalidando a transmissão. Faltava-me o ar...a minha filha de 11 aninhos e a minha mãe não podiam ver aquilo, lá em Portugal... era um contrassenso, mas não podiam saber nada do que se passava comigo. Ninguém me chateou por invalidar a reportagem naquele momento. Eu tinha regressado viva e isso é que interessava. Como vinha de território comanche tive direito a convite para a ceia, no Holliday Inn de Sarajevo. Fiquei na mesa 25 - placa que levei para oferecer ao Carlos Serras Pereira e lhe entreguei no DN (para onde também estava a escrever).

domingo, 15 de abril de 2012

A Prova

Dois anos depois do início do cerco da cidade, os cidadãos estavam desconfiados. Quando os intelectuais, que me convidaram no teatro, me levaram para almoçar numa casa a poucos metros da ponte romana, não pensei que fosse para me pôr à prova antes de me arranjarem um passe para passar para o outro lado, o dos agressores da outra margem.
Qual o meu espanto quando entro numa sala cujas paredes pareciam debruçar-se sobre dois bancos corridos de madeira com uma mesa no meio, na vertical em relação à janela. No topo da mesa, de costas para a janela, colocaram o meu lugar.
Eu andava muito avessa às janelas. Tinha muita fome mas o estômago apertava-se como um nó, que fazia bater imenso o coração. No fundo, também não estávamos ali para comer.
Juntaram-se mais dois convivas, aos três iniciais, além de mim. No prato de cada um vieram dois tomates cereja e uma lula recheada.
E a casa estava gélida, o bafo do nosso ar quente via-se ao longe. O lauto repasto foi acompanhado de uma garrafa de uma mistela que devia querer ser whisky. E demorámos duas horas a comer.
Lembro-me que partia um quarto do tomate cereja (que nunca comera, até então), e saboreava-o duas ou três vezes no interior de todos os recantos da boca, antes do engulir. Bebia um copo da mistela, ficava meio enjoada e enganava o medo que me arrepiava toda a coluna dorsal, a cada tiro que saía dos andares de cima para a frente de guerra, no outro lado da ponte.
Todos tinham acabado de comer e estavam estupefactos por eu não ter exigido mudar de lugar, e também por não ter passado de um terço da lula, o melhor de tudo, que os outros tinham comido em priimeiro lugar.
Em russo, alguém deu a ordem que me foi transmitida em inglês: "podes passar para o banco, para o nosso lado".
Brindámos, festejámos...acho que estive sempre muito desconfiada, era a minha vez. Mas depois daquela mistela de grog feito em casa, já me davam palmadas nas costas e repetiam que eu ia fazer a "história" da minha vida, um scoop.
O que é estranho é que não me lembro do sabor da lula recheada. Mas fiquei fã dos tomates cereja.
Fui-me embora com o cabeça de casal dos Profs catedráticos que me tinham convidado. Do outro lado da ponte esperavam-me os soldados. Lembro-me bem que não houve um tiro durante a minha passagem.



Maria João Carvalho fotografa por Pedro Caiado