quinta-feira, 19 de abril de 2012

Guerras difíceis

Um dia, a Rádio Renascença quis fazer-me uma surpresa, sem perceber que seria a pior coisa a fazer a uma jornalista numa cidade cercada na guerra dos Balcãs. Eu enviei a minha crónica diária e, no fim, amavelmente, anunciaram-me que tinham a minha mãe e a minha filha em conferência, à espera, para falarem comigo. O pior de tudo é que, as minhas Martas, já tinham ouvido a crónica...
Raciocinei e tentei disfarçar e dizer que estava tudo bem, não me faltava nada, era um prazer saber das coisas da escola da minha filha. E não...não havia problema nenhum no sítio onde estava, no escritório de transmissões da EBU. A filha insistia para eu voltar deprepressa.
Eis se não quando começam os vidros a estilhaçar, as bombas a cortarem as comunicações, o pessoal aos gritos... eu nem tive tempo para sossegar a mãe e a filha, porque a ligação foi abaixo.
Há guerra difíceis e surpresas...não gosto.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A rapidez das decisões

Houve uma tarde especialmente terrível, em Sarajevo. Uma tarde em que quatro miúdos irrequietos foram autorizados a sair um bocadinho das casas, que se tinham tornado refúgios com aparência de bunkers e restos de móveis queimados numa lata no meio das salas ou no forno aberto dos fogões das cozinhas...para aquecer. Brincavam quando foram apanhados pelos estilhaços da mesma explosão de granada de obus.
Reeencontrei-os, mais tarde, ao "passar" (fazer a contagem dos mortos do dia)bem...naquele local muito, muito frio, onde o odor nos gela as narinas e não nos livramos dele jamais.
Levaram-me à cantina dos franceses, na sede da missão da ONU, onde eu fui procurar um qualquer perfume para disfarçar o que se me tinha entranhado na pele. Só havia água de colónia barata, mas não me fiz rogada e untei o nariz e as narinas, o que me ajudou naquele espírito de "ir às compras".
Naquela altura eu vivia de trocas, saíra de Zagreb com medicamentos e cigarros, tinham-se acabado os negativos, o pessoal da televisão dava-me velhos rolos de filme, encontrados nos arquivos e eu tinha de pagar de algum modo.
No casão militar da UNPROFOR, além de rações francesas de combate, que nos deram (as melhores do mundo, asseguro) havia whisky Johnny Walker. Imediatamente, pensei que era o melhor para o pessoal médico e dos Media relaxar. À saída íamos (o Pinto Amaral, como sempre, era o índio das Descobertas)todos lampeiros a saír do edifício, quando rebenta o bombardeamento. Eu já estava do lado de fora. O capacete continuava a ser um belíssimo recipiente, desta vez para levar garrafas de whisky. O Pinto Amaral ainda estava a passar a porta e teve tempo de regressar ao interior.
Quando a artilharia inimiga disparava eu via uma luz para aí a 1200 metros...os sacos de areia estavam encostados á entrada e não havia, em meio segundo, hipótese de retroceder sem partir nada. A uns 300 metros, do lado esquerdo, estava um AV5 estacionado. Com rodas e espaço para eu mergulhar por baixo! E assim foi: pleno salto de gazela com um capacete nos braços a atirar-se e a rastejar para debaixo do AV5.
O bombardeamento parou e eu já ouvia as espanholadas do pessoal!!! Eh...eh...Juanita Camiñante, Johnny Walker, mira la imagen que haces de los reporteros"...ai que desgraça...a TVE estava a fazer um documentário sobre a sobrevivência dos jornalistas durante a cobertura do cerco de Sarajevo, e tinha-me filmado, de um canto do edifício, em pleno voo, a salvar um capacete cheio de garrafas como se fosse ouro, aterrando debaixo de um blindado da ONU.
Uma boa negociação impediu o escândalo.
Acreditem ou não, nunca bebi uma gota do que trouxe da chamada cantina dos franceses. Precisava mais de uma maca e de um cobertor. Como prémio, alguém, durante a noite, levou-me uma almofada ao cantinho do escritório onde, finalmente consegui dormir.
No dia seguinte estava tudo bem. Arturo Perez Reverte continuava a chamar-me Maria La Portuguesa. Eu detestava.Grrrr.

terça-feira, 17 de abril de 2012

A garagem

Por mero acaso, dei com a garagem de uns Heróis sem Tempo que faziam o indizível: ir, debaixo de fogo, às franjas da cidade de Sarajevo, procurar cadáveres e feridos graves. As carrinhas em que o faziam estavam pintadas com umas toscas cruzes e uns crescentes vermelhos (mas a organização Cruz Vermelha/Crescente Vermelho não tinha nada a ver com isto) e os motoristas - pelo menos aquele com quem falei e na carrinha do qual entrei - deviam alimentar-se a adrenalina e tabaco. Pelo chão havia uns recipientes com um líquido de cor duvidosa e uma esfregona já negra...
Como todos, naquela guerra, o homem de serviço era rádio-amador e assim sabia onde socorrer quem necessitava, nos piores momentos. Não fazia um torniquete, não fazia talas, conduzia. Colocava as pessoas dentro da viatura e conduzia o melhor e mais rápido que podia.
Naquele entardecer estava sozinho, as baixas neste conhecido contingente de "suicidas" tinha levado os outros. Não havia macas, nem oxigénio, nem médicos, nem enfermeiros. O cidadão ia "empilhar" o mais que pudesse dentro do veículo, num voo rasteirinho, levava a carga ao hospital e tentava chegar vivo à garagem. Quantos mais conseguisse transportar, quanto mais depressa os depositasse nas urgências do Kosova, mais depressa entraria na garagem para recomeçar o ciclo infernal.
Recebeu instuções enquanto falava comigo e empurrou-me para eu sair. Mostrei-lhe a câmara, implorei-lhe que me levasse para fotografar e gravar mas ele, impertubável, pôs-me fora da carrinha e sublinhou o perigo. Era algo que tinha de fazer sozinho.
Ainda bem que, naquele dia, alguém me disse NÃO.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Presos às peças de artilharia



Ao fim do dia, no Holliday Inn da cercada Sarajevo, Maria João Carvalho estava com ar satisfeito: tinha cumprido o dever, sobrevivido e estava de barriguinha cheia.

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O meu périplo na frente de guerra, uma montanha atrás das casas, foi tão intenso que fiquei convencida que se tinham passado meia de dúzia de dias. Mas não. O Zé Rodrigues dos Santos, quando me entrevistou, uns anos depois, para as suas Crónicas de Guerra percebeu que apenas tinham decorrido um ou dois dias.
Ainda não consigo contar tudo. Fiquei horrorizada por ver soldados amarrados aos postos de artilharia, por terem tentado desertar ou por receio do oficial que tivessem esse desejo. Entrevistei alguns, nas pausas e abriguei-me. Os meus dentes batiam, descompassadamente uns nos outros, a lama humedecera-me as botas, as calças, o corpo todo. A última ofensiva, ao anoitecer, foi muito complicada. Acho que desmaiei de fatiga, encostada à lagarta de um blindado. Um oficial mal encarado, acordou-me da letargia e apontou-me a direção da saída desse inferno. Corri até chegar à ponte romana, desta vez debaixo de fogo. Uma ou outra pessoa corria, num ou noutro sentido, sem me ver. Eu, esticava o dedo, implorava por uma boleia em inglês, alegava que era jornalista...
Uma eternidade depois, um velho Ford amarelo pálido, sujo e amolgado, fez chiar os travões à minha frente. "Televasi? " Sim, sim, sim!
Quando entrei no escritório da EBU alguém estava a empurrar a cassete para o maquinismo que ia enviar uma reportagem que focava a morte e desaparecimento de jornalistas em Sarajevo. Eu estava nessa reportagem, iam dar-me como desaparecida...atirei-me a correr e arranquei-a da máquina, invalidando a transmissão. Faltava-me o ar...a minha filha de 11 aninhos e a minha mãe não podiam ver aquilo, lá em Portugal... era um contrassenso, mas não podiam saber nada do que se passava comigo. Ninguém me chateou por invalidar a reportagem naquele momento. Eu tinha regressado viva e isso é que interessava. Como vinha de território comanche tive direito a convite para a ceia, no Holliday Inn de Sarajevo. Fiquei na mesa 25 - placa que levei para oferecer ao Carlos Serras Pereira e lhe entreguei no DN (para onde também estava a escrever).

domingo, 15 de abril de 2012

A Prova

Dois anos depois do início do cerco da cidade, os cidadãos estavam desconfiados. Quando os intelectuais, que me convidaram no teatro, me levaram para almoçar numa casa a poucos metros da ponte romana, não pensei que fosse para me pôr à prova antes de me arranjarem um passe para passar para o outro lado, o dos agressores da outra margem.
Qual o meu espanto quando entro numa sala cujas paredes pareciam debruçar-se sobre dois bancos corridos de madeira com uma mesa no meio, na vertical em relação à janela. No topo da mesa, de costas para a janela, colocaram o meu lugar.
Eu andava muito avessa às janelas. Tinha muita fome mas o estômago apertava-se como um nó, que fazia bater imenso o coração. No fundo, também não estávamos ali para comer.
Juntaram-se mais dois convivas, aos três iniciais, além de mim. No prato de cada um vieram dois tomates cereja e uma lula recheada.
E a casa estava gélida, o bafo do nosso ar quente via-se ao longe. O lauto repasto foi acompanhado de uma garrafa de uma mistela que devia querer ser whisky. E demorámos duas horas a comer.
Lembro-me que partia um quarto do tomate cereja (que nunca comera, até então), e saboreava-o duas ou três vezes no interior de todos os recantos da boca, antes do engulir. Bebia um copo da mistela, ficava meio enjoada e enganava o medo que me arrepiava toda a coluna dorsal, a cada tiro que saía dos andares de cima para a frente de guerra, no outro lado da ponte.
Todos tinham acabado de comer e estavam estupefactos por eu não ter exigido mudar de lugar, e também por não ter passado de um terço da lula, o melhor de tudo, que os outros tinham comido em priimeiro lugar.
Em russo, alguém deu a ordem que me foi transmitida em inglês: "podes passar para o banco, para o nosso lado".
Brindámos, festejámos...acho que estive sempre muito desconfiada, era a minha vez. Mas depois daquela mistela de grog feito em casa, já me davam palmadas nas costas e repetiam que eu ia fazer a "história" da minha vida, um scoop.
O que é estranho é que não me lembro do sabor da lula recheada. Mas fiquei fã dos tomates cereja.
Fui-me embora com o cabeça de casal dos Profs catedráticos que me tinham convidado. Do outro lado da ponte esperavam-me os soldados. Lembro-me bem que não houve um tiro durante a minha passagem.



Maria João Carvalho fotografa por Pedro Caiado

sábado, 14 de abril de 2012

Índia

Tinha tido uma imensa vontade de responder, naquele recenseamento de Lisboa dos anos 80 (demorou quase uma década até aos 90), que a minha religião era a judaica. Por nada, por rebeldia e para me colocar do lado de uma minoria. Eu era mãe solteira e, portanto, de uma minoria, não recenseada na época, e muito estigmatizada.
Jesus, que tudo compreende, e os meus Santos católicos e não, Buda e e os que defendem o Bem não iam julgar-me...mas, no fim de tudo, respondi: sou católica.O meu irmão Zé, soube eu mais tarde, na nossa casa da Lapa/Santos-o-Velho, teve a coragem e respondeu naquele censos a inverdade: judeu. E como fiquei contente! Ele era o meu Zorro, o Chefe Índio, o líder da revolta.
Não sei bem explicar a razão desta necessidade de contrariar os recenseamentos. É algo inato. O meu irmão era sempre o índio e, só num teatro de jardim escola aparece a fazer de comboy. Eu era como ele. Queríamos ser os Apaches honrados e dignos que morriam a defender o povo.
Com Chico Buarque ou Elis Regina - a minha versão preferida, a dois...
Diz o provérbio turco: cuidado com o que desejas; pode realizar-se.

No serão, depois da peça a que assisti com os "sarajevianos", durante o cerco que cobri, tive de ficar com eles. Não havia como sair contra as miras noturnas dos bem equipados "caçadores de cabeças".
Alguém, do grupo de intelectuais que mais respeito no mundo, trouxe uma pequenina travessa de salada russa (os russos chamam-lhe salada francesa), sem azeite ou atum ou peixe ou carne, para mais de 13 que estavam nessa ceia - metade afastou-se por não haver comida....restaram seis ou sete.

Por gentileza, comi três quadradinhos de batata e umas duas ervilhas.
Estava a partilhar uma refeição com sobreviventes de todos os grupos étnicos que não estavam de visita nem a cobrir guerras alheias. Eu vinha rosada e gordinha, com pouco mais de 30 anos viçosos e cheios de saúde. Os escritores, atores e amigos que ali estavam, passavam fome desde o início do cerco, quase dois anos antes.
Deixei-os a falar depois, quando me encolhi (tão satisfeita estava por me aceitarem como um deles!) que adormeci até muito de manhã...muito alta...estavam apenas três pessoas, em silêncio, à espera que eu acordasse, no dia seguinte. Uma professora de Matemática, um Prof. russo de Literatura e um "escritor" que falava inglês manhoso. Representavam as três etnias e convidaram-me para almoçar.
Íamos sair.
A cave onde tinha assistido a uma das grandes "perfomances" da minha vida, estava gelada e cheirava a fumo requentado de dia seguinte. As cadeiras estavam fora de lugar, desasjustadas do que eu queria gravar da véspera, de uma audiência subjugada e faminta de cultura e glória, de momentos de requinte.
Quando me levantei e os segui, tive a certeza de ser índia. Naquele momento, ei, com a memória do meu irmão Zé Mau ia conhecer os índios na sua aldeia.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Resistência

post dedicado a Miguel Borges, fabuloso protagonista de "A Morte de Danton", em cena no Teatro Dona Maria II, Lisboa


Cantar nos degraus da televisão bósnia, quando todos os outros dormiam na cave (e levavam as almofadas!) durante os bombardeamentos noturnos na Sarajevo cercada, valeu-me um convite para o teatro (com Zoran Becic).
Não um convite qualquer, mas o teatro dos resistentes, aquele a que só os "sarajevianos" tinham acesso. Na tarde seguinte, como prometido, foram buscar-me às traseiras da televisão. No centro da cidade, passámos a esquina do café onde paravam todos os milicianos à civil, espiões e intelectuais, e torneámos a parede escavacada para um pátio, entrando por um labirinto de passagens muradas, com a cabeça baixa e em passo de corrida, para evitar os tiros das armas com objetivas mortais que se fixavam em nós.
Hoje, sexta-feira 13, lembro que tive sorte. Muita sorte. Foi estranho assistir a uma peça com grandes atores a falarem de sobrevivência, quando somos sobreviventes.

A chegada dos atores e do público foi muito difícil.
A adrelina e o medo levaram-me ao segundo andar para ir à casa de banho, antes do início da peça.
Tinham-me avisado: a janela dava para as janelas dos 'snipers', mesmo em frente. Não havia adesivos opacos nos vidros, nenhuma proteção além de uma tinta quase transparente, meio gasta, que piorava o efeito das sombras naquele fim de tarde. A porta do minúsculo cubículo dava para a janela. Sentei-me, como uma mola, no canto entre a janela e a sanita. Como levantar a cabeça, sabendo que, do outro lado, estava um caçador e eu era o alvo? Como morrer, com dignidade, na casa de banho do teatro? Como gritar por socorro quando todos estavam na cave?
Também não teria voz...a sanita de porcelana parecia um enorme pescoço branco de um perú, prestes a ser cortado para a ceia natalícia. Eu...era apenas o copo de aguardente que alguém usaria para o sangrar.
Lembrei-me dos diretores de teatro atingidos antes, para não levarem aquela peça a público. Um já morto, o outro, numa cadeira de rodas, e o terceiro, o que me recebeu...fiz, naquele momento a frase do posterior poema que incluia: "a luta poética de escritores/ muitos, a quem os dedos já roubaram/para que, da morte, não sejam delatores".
De um salto, num ápice de fúria e desafio, fiz o que tinha a fazer e desci as escadas numa corrida, quase sem respirar. A peça teve início uns minutos depois. Eu chorei baixinho, durante uns minutos. Só uma escritora muçulmana muito querida, que se chamava Ferida, me limpou a face e me apertou o ombro em sinal de compreensão. O grande Zoran catapultou-me para outra realidade: a da sobrevivência cultural no meio do conflito. Mergulhei de tal modo que, no final, já era um deles, um bósnio ligado a todas as etnias.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Mais valia ocidental à espera do pingo de água

Os meus amigos não acharam que eu deveria ter vergonha por me proteger com material militar. Acolheram o capacete como o melhor dos recipientes de recolha assegurada de água dos prédios bombardeados. Receberam-me como a proprietária da uma mais valia, retirando-me a propriedade da mais valia, no mesmo momento. E eu contente.

Com o colete anti-fragmentos foi diferente, deixámo-lo na televisão porque não poderíamos emprestar a uma das crianças ou mulheres, a um dos escritores ou a um dos resistentes. Fomos todos para a rua sem proteção. Era o objetivo: que eu me sentisse nua como todos os habitantes de Sarajevo. Assim, fomos para a ruína de um prédio, na fila da cave, e eu era a sexta pessoa. Deu para verificar os recipientes dos que estavam à minha frente. Havia uma garrafa de plástico com um furo de bala escondido a adesivo de garagem ou de canalizações.

Eu cogitava: esta água chega toda contaminada a estas ruínas, e nem os recipientes podemos ter esterilizados? Esterilizados? Ah...Ah...dei comigo a rir alto e os outros a olhar para trás como se os executasse...quase....uma rajada de Ak 47 varreu a parede exterior do prédio em ruínas
De cócoras, agarrei a criança da minha frente e mostrei-lhe o capacete, fui buscar os pingos lentérrimos que se enferrujavem só de pensar em cair... mas quando passei o meu capacete àquela criança, eu estava pronta para discutir política com os assassinos de serviço em Sarajevo. Tive direito a um chefe de milícia e alguns milicianos executantes, mas o ato valeu-me a entrevista.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A "falsa" do subconsciente

Escarafunchar num sotão de memórias, fechado há 20 anos, é, no mínimo, estranho. Nos Açores chamamos "falsa" ao sotão.
A minha falsa tinha uma memória fictícia, daquelas com que justificamos algo muito estúpido, que a consciência não aceita.
Então, assim de repente, descobri que no post "Welcome to Sarajevo", cometi uma imprecisão, pura e simplesmente porque não sabia, tinha enterrado a "coisa".
E "a coisa" é que, eu não levei apenas a roupa do corpo, medicamentos e material fotográfico para Sarajevo. Eu levava vestido, por cima da tal blusa de seda selvagem cor de estanho e por baixo do meu casaco da US Navy, um colete anti-fragmentos emprestado pela Marinha portuguesa e um capacete duplo que eu devia ter pintado de uma cor discreta.
Burra, como nunca tinha tido um capacete para pintar, só meu e só para mim, pintei-o de branco. Achei que tinha a ver com paz e era giro, no meio da guerra...
Mas havia uma norma que tinha de cumprir, que era escrever o grupo sanguínio no capacete. Imaginem, escrevi a negro, redondinho...ORH+ para dissipar qualquer dúvida.
Só depois da obra pronta, verifiquei o erro que me podia custar a vida e já não podia emendar: o meu capacete era o melhor alvo, a meio quilómetro, que um sniper de domingo podia encontrar! Até um vesgo me veria a brilhar no meio da multidão na Sniper Avenue, porque, ainda por cima, éramos obrigados (os jornalistas) a identificarmo-nos como Press, de forma a ser vistos e notados bem de longe.
Buáaaaaaa!!!
Eu estava presa a um redemoinho de que não me podia libertar. O colete pesava 15 kg -era anti fragmentos e não apenas anti-bala, era um Fórmula Um dos coletes da Marinha e o capacete, de 2 quilos, bem reforçado, pesava mais do que a minha vida, depois de dois ou três dias de fome, a alimentar-me de adrenalina e cheiro a sangue.
Quando fiz a minha primeira reportagem entre civis, em Sarajevo, por vergonha, não levei proteção nem fui um alvo apelativo.
Mas coloquei a "gafe" na falsa... onde ficou até hoje.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Quem é quem numa guerra urbana


Nem queria acreditar que, naquele sangrento ano de 1994, no escritório de transmissões da EBU na tv bósnia em Sarajevo, cheio de gente, um homem estava alheado de tudo a afiar e verificar a lâmina da sua faca do mato. E, mea culpa, confesso que também só reparei nele quando procurei o mapa da cidade sitiada que me indicaram estar "naquela" parede.
Quem é, quem não é... "CNN", disse um dos fixer's bósnios com ar de desprezo... "veio para afiar a faca".
Os imensos escritórios tomados pelos americanos (espaço da antiga direção) ficavam na ala oposta dos nossos humildes e minúsculos aposentos europeus.
Era irónico que o técnico que instalou as antenas para as perguntas ao surpreendido Clinton, no telhado, fosse o mesmo que precisava refugiar-se para afiar, estranha e silenciosamente, a sua faca.
Quando consegui obter algumas respostas, ele não foi muito eloquente, apesar do inglês texano: "- Como raio pensas que instalo cabos mais depressa que me chega a bala?"
Depois, levou-me ao telhado. Tinha um passe que balbuciou aos guardas da porta para o exterior e, imediatamente, corremos para uma das torres/chaminés do centro. O vigia estava fortemente armado e aconselhou-me a partir nos 5 minutos seguintes. Fui-me embora sozinha e fechei a porta das escadas de serviço no momento em que recomeçou a troca de tiros.