Tinha tido uma imensa vontade de responder, naquele recenseamento de Lisboa dos anos 80 (demorou quase uma década até aos 90), que a minha religião era a judaica. Por nada, por rebeldia e para me colocar do lado de uma minoria. Eu era mãe solteira e, portanto, de uma minoria, não recenseada na época, e muito estigmatizada.
Jesus, que tudo compreende, e os meus Santos católicos e não, Buda e e os que defendem o Bem não iam julgar-me...mas, no fim de tudo, respondi: sou católica.O meu irmão Zé, soube eu mais tarde, na nossa casa da Lapa/Santos-o-Velho, teve a coragem e respondeu naquele censos a inverdade: judeu. E como fiquei contente! Ele era o meu Zorro, o Chefe Índio, o líder da revolta.
Não sei bem explicar a razão desta necessidade de contrariar os recenseamentos. É algo inato. O meu irmão era sempre o índio e, só num teatro de jardim escola aparece a fazer de comboy. Eu era como ele. Queríamos ser os Apaches honrados e dignos que morriam a defender o povo.
Com Chico Buarque ou Elis Regina - a minha versão preferida, a dois...
Diz o provérbio turco: cuidado com o que desejas; pode realizar-se.
No serão, depois da peça a que assisti com os "sarajevianos", durante o cerco que cobri, tive de ficar com eles. Não havia como sair contra as miras noturnas dos bem equipados "caçadores de cabeças".
Alguém, do grupo de intelectuais que mais respeito no mundo, trouxe uma pequenina travessa de salada russa (os russos chamam-lhe salada francesa), sem azeite ou atum ou peixe ou carne, para mais de 13 que estavam nessa ceia - metade afastou-se por não haver comida....restaram seis ou sete.
Por gentileza, comi três quadradinhos de batata e umas duas ervilhas.
Estava a partilhar uma refeição com sobreviventes de todos os grupos étnicos que não estavam de visita nem a cobrir guerras alheias. Eu vinha rosada e gordinha, com pouco mais de 30 anos viçosos e cheios de saúde. Os escritores, atores e amigos que ali estavam, passavam fome desde o início do cerco, quase dois anos antes.
Deixei-os a falar depois, quando me encolhi (tão satisfeita estava por me aceitarem como um deles!) que adormeci até muito de manhã...muito alta...estavam apenas três pessoas, em silêncio, à espera que eu acordasse, no dia seguinte. Uma professora de Matemática, um Prof. russo de Literatura e um "escritor" que falava inglês manhoso. Representavam as três etnias e convidaram-me para almoçar.
Íamos sair.
A cave onde tinha assistido a uma das grandes "perfomances" da minha vida, estava gelada e cheirava a fumo requentado de dia seguinte. As cadeiras estavam fora de lugar, desasjustadas do que eu queria gravar da véspera, de uma audiência subjugada e faminta de cultura e glória, de momentos de requinte.
Quando me levantei e os segui, tive a certeza de ser índia. Naquele momento, ei, com a memória do meu irmão Zé Mau ia conhecer os índios na sua aldeia.
sábado, 14 de abril de 2012
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Resistência
post dedicado a Miguel Borges, fabuloso protagonista de "A Morte de Danton", em cena no Teatro Dona Maria II, Lisboa
Cantar nos degraus da televisão bósnia, quando todos os outros dormiam na cave (e levavam as almofadas!) durante os bombardeamentos noturnos na Sarajevo cercada, valeu-me um convite para o teatro (com Zoran Becic).
Não um convite qualquer, mas o teatro dos resistentes, aquele a que só os "sarajevianos" tinham acesso. Na tarde seguinte, como prometido, foram buscar-me às traseiras da televisão. No centro da cidade, passámos a esquina do café onde paravam todos os milicianos à civil, espiões e intelectuais, e torneámos a parede escavacada para um pátio, entrando por um labirinto de passagens muradas, com a cabeça baixa e em passo de corrida, para evitar os tiros das armas com objetivas mortais que se fixavam em nós.
Hoje, sexta-feira 13, lembro que tive sorte. Muita sorte. Foi estranho assistir a uma peça com grandes atores a falarem de sobrevivência, quando somos sobreviventes.
A chegada dos atores e do público foi muito difícil.
A adrelina e o medo levaram-me ao segundo andar para ir à casa de banho, antes do início da peça.
Tinham-me avisado: a janela dava para as janelas dos 'snipers', mesmo em frente. Não havia adesivos opacos nos vidros, nenhuma proteção além de uma tinta quase transparente, meio gasta, que piorava o efeito das sombras naquele fim de tarde. A porta do minúsculo cubículo dava para a janela. Sentei-me, como uma mola, no canto entre a janela e a sanita. Como levantar a cabeça, sabendo que, do outro lado, estava um caçador e eu era o alvo? Como morrer, com dignidade, na casa de banho do teatro? Como gritar por socorro quando todos estavam na cave?
Também não teria voz...a sanita de porcelana parecia um enorme pescoço branco de um perú, prestes a ser cortado para a ceia natalícia. Eu...era apenas o copo de aguardente que alguém usaria para o sangrar.
Lembrei-me dos diretores de teatro atingidos antes, para não levarem aquela peça a público. Um já morto, o outro, numa cadeira de rodas, e o terceiro, o que me recebeu...fiz, naquele momento a frase do posterior poema que incluia: "a luta poética de escritores/ muitos, a quem os dedos já roubaram/para que, da morte, não sejam delatores".
De um salto, num ápice de fúria e desafio, fiz o que tinha a fazer e desci as escadas numa corrida, quase sem respirar. A peça teve início uns minutos depois. Eu chorei baixinho, durante uns minutos. Só uma escritora muçulmana muito querida, que se chamava Ferida, me limpou a face e me apertou o ombro em sinal de compreensão. O grande Zoran catapultou-me para outra realidade: a da sobrevivência cultural no meio do conflito. Mergulhei de tal modo que, no final, já era um deles, um bósnio ligado a todas as etnias.
Cantar nos degraus da televisão bósnia, quando todos os outros dormiam na cave (e levavam as almofadas!) durante os bombardeamentos noturnos na Sarajevo cercada, valeu-me um convite para o teatro (com Zoran Becic).
Não um convite qualquer, mas o teatro dos resistentes, aquele a que só os "sarajevianos" tinham acesso. Na tarde seguinte, como prometido, foram buscar-me às traseiras da televisão. No centro da cidade, passámos a esquina do café onde paravam todos os milicianos à civil, espiões e intelectuais, e torneámos a parede escavacada para um pátio, entrando por um labirinto de passagens muradas, com a cabeça baixa e em passo de corrida, para evitar os tiros das armas com objetivas mortais que se fixavam em nós.
Hoje, sexta-feira 13, lembro que tive sorte. Muita sorte. Foi estranho assistir a uma peça com grandes atores a falarem de sobrevivência, quando somos sobreviventes.
A chegada dos atores e do público foi muito difícil.
A adrelina e o medo levaram-me ao segundo andar para ir à casa de banho, antes do início da peça.
Tinham-me avisado: a janela dava para as janelas dos 'snipers', mesmo em frente. Não havia adesivos opacos nos vidros, nenhuma proteção além de uma tinta quase transparente, meio gasta, que piorava o efeito das sombras naquele fim de tarde. A porta do minúsculo cubículo dava para a janela. Sentei-me, como uma mola, no canto entre a janela e a sanita. Como levantar a cabeça, sabendo que, do outro lado, estava um caçador e eu era o alvo? Como morrer, com dignidade, na casa de banho do teatro? Como gritar por socorro quando todos estavam na cave?
Também não teria voz...a sanita de porcelana parecia um enorme pescoço branco de um perú, prestes a ser cortado para a ceia natalícia. Eu...era apenas o copo de aguardente que alguém usaria para o sangrar.
Lembrei-me dos diretores de teatro atingidos antes, para não levarem aquela peça a público. Um já morto, o outro, numa cadeira de rodas, e o terceiro, o que me recebeu...fiz, naquele momento a frase do posterior poema que incluia: "a luta poética de escritores/ muitos, a quem os dedos já roubaram/para que, da morte, não sejam delatores".
De um salto, num ápice de fúria e desafio, fiz o que tinha a fazer e desci as escadas numa corrida, quase sem respirar. A peça teve início uns minutos depois. Eu chorei baixinho, durante uns minutos. Só uma escritora muçulmana muito querida, que se chamava Ferida, me limpou a face e me apertou o ombro em sinal de compreensão. O grande Zoran catapultou-me para outra realidade: a da sobrevivência cultural no meio do conflito. Mergulhei de tal modo que, no final, já era um deles, um bósnio ligado a todas as etnias.
Editoria:
Sarajevo 20 anos,
teatro
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Mais valia ocidental à espera do pingo de água
Os meus amigos não acharam que eu deveria ter vergonha por me proteger com material militar. Acolheram o capacete como o melhor dos recipientes de recolha assegurada de água dos prédios bombardeados. Receberam-me como a proprietária da uma mais valia, retirando-me a propriedade da mais valia, no mesmo momento. E eu contente.
Com o colete anti-fragmentos foi diferente, deixámo-lo na televisão porque não poderíamos emprestar a uma das crianças ou mulheres, a um dos escritores ou a um dos resistentes. Fomos todos para a rua sem proteção. Era o objetivo: que eu me sentisse nua como todos os habitantes de Sarajevo. Assim, fomos para a ruína de um prédio, na fila da cave, e eu era a sexta pessoa. Deu para verificar os recipientes dos que estavam à minha frente. Havia uma garrafa de plástico com um furo de bala escondido a adesivo de garagem ou de canalizações.
Eu cogitava: esta água chega toda contaminada a estas ruínas, e nem os recipientes podemos ter esterilizados? Esterilizados? Ah...Ah...dei comigo a rir alto e os outros a olhar para trás como se os executasse...quase....uma rajada de Ak 47 varreu a parede exterior do prédio em ruínas
De cócoras, agarrei a criança da minha frente e mostrei-lhe o capacete, fui buscar os pingos lentérrimos que se enferrujavem só de pensar em cair... mas quando passei o meu capacete àquela criança, eu estava pronta para discutir política com os assassinos de serviço em Sarajevo. Tive direito a um chefe de milícia e alguns milicianos executantes, mas o ato valeu-me a entrevista.
Com o colete anti-fragmentos foi diferente, deixámo-lo na televisão porque não poderíamos emprestar a uma das crianças ou mulheres, a um dos escritores ou a um dos resistentes. Fomos todos para a rua sem proteção. Era o objetivo: que eu me sentisse nua como todos os habitantes de Sarajevo. Assim, fomos para a ruína de um prédio, na fila da cave, e eu era a sexta pessoa. Deu para verificar os recipientes dos que estavam à minha frente. Havia uma garrafa de plástico com um furo de bala escondido a adesivo de garagem ou de canalizações.
Eu cogitava: esta água chega toda contaminada a estas ruínas, e nem os recipientes podemos ter esterilizados? Esterilizados? Ah...Ah...dei comigo a rir alto e os outros a olhar para trás como se os executasse...quase....uma rajada de Ak 47 varreu a parede exterior do prédio em ruínas
De cócoras, agarrei a criança da minha frente e mostrei-lhe o capacete, fui buscar os pingos lentérrimos que se enferrujavem só de pensar em cair... mas quando passei o meu capacete àquela criança, eu estava pronta para discutir política com os assassinos de serviço em Sarajevo. Tive direito a um chefe de milícia e alguns milicianos executantes, mas o ato valeu-me a entrevista.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
A "falsa" do subconsciente
Escarafunchar num sotão de memórias, fechado há 20 anos, é, no mínimo, estranho. Nos Açores chamamos "falsa" ao sotão.
A minha falsa tinha uma memória fictícia, daquelas com que justificamos algo muito estúpido, que a consciência não aceita.
Então, assim de repente, descobri que no post "Welcome to Sarajevo", cometi uma imprecisão, pura e simplesmente porque não sabia, tinha enterrado a "coisa".
E "a coisa" é que, eu não levei apenas a roupa do corpo, medicamentos e material fotográfico para Sarajevo. Eu levava vestido, por cima da tal blusa de seda selvagem cor de estanho e por baixo do meu casaco da US Navy, um colete anti-fragmentos emprestado pela Marinha portuguesa e um capacete duplo que eu devia ter pintado de uma cor discreta.
Burra, como nunca tinha tido um capacete para pintar, só meu e só para mim, pintei-o de branco. Achei que tinha a ver com paz e era giro, no meio da guerra...
Mas havia uma norma que tinha de cumprir, que era escrever o grupo sanguínio no capacete. Imaginem, escrevi a negro, redondinho...ORH+ para dissipar qualquer dúvida.
Só depois da obra pronta, verifiquei o erro que me podia custar a vida e já não podia emendar: o meu capacete era o melhor alvo, a meio quilómetro, que um sniper de domingo podia encontrar! Até um vesgo me veria a brilhar no meio da multidão na Sniper Avenue, porque, ainda por cima, éramos obrigados (os jornalistas) a identificarmo-nos como Press, de forma a ser vistos e notados bem de longe.
Buáaaaaaa!!!
Eu estava presa a um redemoinho de que não me podia libertar. O colete pesava 15 kg -era anti fragmentos e não apenas anti-bala, era um Fórmula Um dos coletes da Marinha e o capacete, de 2 quilos, bem reforçado, pesava mais do que a minha vida, depois de dois ou três dias de fome, a alimentar-me de adrenalina e cheiro a sangue.
Quando fiz a minha primeira reportagem entre civis, em Sarajevo, por vergonha, não levei proteção nem fui um alvo apelativo.
Mas coloquei a "gafe" na falsa... onde ficou até hoje.
A minha falsa tinha uma memória fictícia, daquelas com que justificamos algo muito estúpido, que a consciência não aceita.
Então, assim de repente, descobri que no post "Welcome to Sarajevo", cometi uma imprecisão, pura e simplesmente porque não sabia, tinha enterrado a "coisa".
E "a coisa" é que, eu não levei apenas a roupa do corpo, medicamentos e material fotográfico para Sarajevo. Eu levava vestido, por cima da tal blusa de seda selvagem cor de estanho e por baixo do meu casaco da US Navy, um colete anti-fragmentos emprestado pela Marinha portuguesa e um capacete duplo que eu devia ter pintado de uma cor discreta.
Burra, como nunca tinha tido um capacete para pintar, só meu e só para mim, pintei-o de branco. Achei que tinha a ver com paz e era giro, no meio da guerra...
Mas havia uma norma que tinha de cumprir, que era escrever o grupo sanguínio no capacete. Imaginem, escrevi a negro, redondinho...ORH+ para dissipar qualquer dúvida.
Só depois da obra pronta, verifiquei o erro que me podia custar a vida e já não podia emendar: o meu capacete era o melhor alvo, a meio quilómetro, que um sniper de domingo podia encontrar! Até um vesgo me veria a brilhar no meio da multidão na Sniper Avenue, porque, ainda por cima, éramos obrigados (os jornalistas) a identificarmo-nos como Press, de forma a ser vistos e notados bem de longe.
Buáaaaaaa!!!
Eu estava presa a um redemoinho de que não me podia libertar. O colete pesava 15 kg -era anti fragmentos e não apenas anti-bala, era um Fórmula Um dos coletes da Marinha e o capacete, de 2 quilos, bem reforçado, pesava mais do que a minha vida, depois de dois ou três dias de fome, a alimentar-me de adrenalina e cheiro a sangue.
Quando fiz a minha primeira reportagem entre civis, em Sarajevo, por vergonha, não levei proteção nem fui um alvo apelativo.
Mas coloquei a "gafe" na falsa... onde ficou até hoje.
Editoria:
Açores,
memória,
Sarajevo 20 anos,
Welcome to Sarajevo
terça-feira, 10 de abril de 2012
Quem é quem numa guerra urbana

Nem queria acreditar que, naquele sangrento ano de 1994, no escritório de transmissões da EBU na tv bósnia em Sarajevo, cheio de gente, um homem estava alheado de tudo a afiar e verificar a lâmina da sua faca do mato. E, mea culpa, confesso que também só reparei nele quando procurei o mapa da cidade sitiada que me indicaram estar "naquela" parede.
Quem é, quem não é... "CNN", disse um dos fixer's bósnios com ar de desprezo... "veio para afiar a faca".
Os imensos escritórios tomados pelos americanos (espaço da antiga direção) ficavam na ala oposta dos nossos humildes e minúsculos aposentos europeus.
Era irónico que o técnico que instalou as antenas para as perguntas ao surpreendido Clinton, no telhado, fosse o mesmo que precisava refugiar-se para afiar, estranha e silenciosamente, a sua faca.
Quando consegui obter algumas respostas, ele não foi muito eloquente, apesar do inglês texano: "- Como raio pensas que instalo cabos mais depressa que me chega a bala?"
Depois, levou-me ao telhado. Tinha um passe que balbuciou aos guardas da porta para o exterior e, imediatamente, corremos para uma das torres/chaminés do centro. O vigia estava fortemente armado e aconselhou-me a partir nos 5 minutos seguintes. Fui-me embora sozinha e fechei a porta das escadas de serviço no momento em que recomeçou a troca de tiros.
Editoria:
Sarajevo 20 anos
segunda-feira, 9 de abril de 2012
80 dólares para dormir na banheira
Quando me levaram ao Holiday Inn de Sarajevo, durante o cerco e no próprio dia da minha chegada, tive de correr da viatura para a entrada da cozinha debaixo do fogo dos snipers. Não havia muito espaço para ziguezagues. Rapidamente cheguei a um enorme hall de entrada com bar ao centro e um grupo de gente surrealista a fazer os negócios possíveis no meio da guerra. A rececionista resolveu o meu problema logo ali: 80 dólares num quarto de segundo andar, do qual não podia passar para cima, por causa dos bombardeamentos noturnos.
Era, no entanto, uma zona que todos os beligerantes tinham prometido respeitar.
Uns dias depois, percebi porque é que ninguém respeitava.
Quando os jornalistas, escritores, e fixers se retiravam, os mais estranhos notívagos subiam aos andares mais altos e atiravam, do hotel, sobre os diferentes alvos.
Nunca percebi quem é que nos vendia: a raia miúda da receção ou alguma ONG... mas os mercenários entravam e o fogo começava. Nós só ouvíamos as granadas que nos explodiam nos quartos, em resposta. Eu dormia na banheira, que era pequena mas, ao menos, o quarto de banho ainda tinha uma parede e estava uns metros afastado da janela para o exterior.
Incapaz de conciliar o sono, fui à despedida dos jornalistas italianos que partiam de Sarajevo no dia seguinte. Éramos um grupo jeitoso, risonho, apesar do cansaço dos que se iam embora e da minha ansiedade em querer saber como desenvencilhar-me, como partilhar um carro, um motorista, inscrever-me na "international pool" (todos contribuíamos e servíamo-nos das imagens e sons)...
Eis que o jovem escritor grego, George, aparece aos gritos "Maria, Maria! Explodiram com o teu quarto!!!"
Acabara de chegar e começavam os mal entendidos. "- Não me chames Maria, George, Maria João é um nome composto, como Maria José, Maria Juan, Johnny...a propósito, vai um Johnny Walker?"
"- Não estás a perceber - ripostava o infeliz - explodiu uma granada ao meu lado, estou no quarto a seguir, anda ver, traz a chave!!!"
Tremia muito, o pobre do rapaz. Fomos todos, em excursão, atrás dele. Realmente não havia nada direito e até a tela que devia cobrir integralmente os vidros estava no chão da entrada, mas a granada não explodira ali. Fomos então ao quarto contíguo, imediatamente antes do meu, que tinha a porta entreaberta...e lá estava a explicação: a granada de obus entrara junto à parede que separava os quartos, mas não no lado interior da minha.

Os dois quartos ficaram em muito mau estado e achei que era um belíssimo aviso para terminar as despedidas e continuar a noite na banheira.
Mesmo assim, uns dias depois mudei-me para um escritório da tv bósnia a convite de um extraordinário grupo ibérico.
Era, no entanto, uma zona que todos os beligerantes tinham prometido respeitar.
Uns dias depois, percebi porque é que ninguém respeitava.
Quando os jornalistas, escritores, e fixers se retiravam, os mais estranhos notívagos subiam aos andares mais altos e atiravam, do hotel, sobre os diferentes alvos.
Nunca percebi quem é que nos vendia: a raia miúda da receção ou alguma ONG... mas os mercenários entravam e o fogo começava. Nós só ouvíamos as granadas que nos explodiam nos quartos, em resposta. Eu dormia na banheira, que era pequena mas, ao menos, o quarto de banho ainda tinha uma parede e estava uns metros afastado da janela para o exterior.
Incapaz de conciliar o sono, fui à despedida dos jornalistas italianos que partiam de Sarajevo no dia seguinte. Éramos um grupo jeitoso, risonho, apesar do cansaço dos que se iam embora e da minha ansiedade em querer saber como desenvencilhar-me, como partilhar um carro, um motorista, inscrever-me na "international pool" (todos contribuíamos e servíamo-nos das imagens e sons)...
Eis que o jovem escritor grego, George, aparece aos gritos "Maria, Maria! Explodiram com o teu quarto!!!"
Acabara de chegar e começavam os mal entendidos. "- Não me chames Maria, George, Maria João é um nome composto, como Maria José, Maria Juan, Johnny...a propósito, vai um Johnny Walker?"
"- Não estás a perceber - ripostava o infeliz - explodiu uma granada ao meu lado, estou no quarto a seguir, anda ver, traz a chave!!!"
Tremia muito, o pobre do rapaz. Fomos todos, em excursão, atrás dele. Realmente não havia nada direito e até a tela que devia cobrir integralmente os vidros estava no chão da entrada, mas a granada não explodira ali. Fomos então ao quarto contíguo, imediatamente antes do meu, que tinha a porta entreaberta...e lá estava a explicação: a granada de obus entrara junto à parede que separava os quartos, mas não no lado interior da minha.

Os dois quartos ficaram em muito mau estado e achei que era um belíssimo aviso para terminar as despedidas e continuar a noite na banheira.
Mesmo assim, uns dias depois mudei-me para um escritório da tv bósnia a convite de um extraordinário grupo ibérico.
Editoria:
Holiday INN Sarajevo war,
Sarajevo 20 anos
domingo, 8 de abril de 2012
Ódio...20 anos depois
Tal como ficou demonstrado na reportagem da euronews ,a Bósnia "desalcança" a paz.
A propósito de uma história de que falei no DN de há uns anos e no livro "da guerra e outros poemas", Neven S., um nacionalista de etnia croata tentou arrasar-nos no fb, a mim e a uma bósnia exilada no Canadá. Já o bloqueámos e participámos dele. No entanto, é assim que pode eclodir, de novo, a guerra: pela negação dos factos.
Segundo esse "facho" que se exibe numa foto em calções, a abraçar tigres bebé, a comunidade judaica de Sarajevo saiu, integralmente, de autocarro de Sarajevo, em 92. Foram todos usufruir de uma bela e luxuosa vida em Telavive.
Estranho imenso que este croata mantenha o mesmo comportamento negativista do chefe muçulmano da comunidade bósnia. Foi uma surpresa, para mim, estarem ainda tão atiçados contra os sefarditas.
Não tenho aqui o DN para reproduzir, mas deixo-vos o poema em que foco a questão. Vivia menos de metade da comunidade judaica de Sarajevo quando lá estive, em 93, creio. Muitos partiram mas outros foram mortos. Negá-lo é admitir nacionalismos e crimes de guerra que era tempo de estarem resolvidos. ´
No dia 26 de agosto de 1995 escrevi:
Há mil dias que Sarajevo chora
e ao mundo implora um gesto seu
como se os fósseis, de repente,
desatassem a viver
e as núvens fizessem de fofo ninho
para os bebés dormirem
e os deuses pudesse comer à nossa mesa
e com as nossas lágrimas na garganta
Há mil dias e mil noites que se ignora
que há espanto na morte
na sorte que Sarajevo implora
em cada minuto que sofre
Aniversário do luto europeu
do frio que esventra campas nos estádios
do sacrifício do povo judeu
que mais uma vez
selou todos os lábios
Muçulmanos, sérvios, croatas
todos clamam estandartes e cores várias
e os últimos judeus de Sarajevo
que falam, quem diria, português
morrem silenciosos como viveram
estigmatizados
sem lugar nem vez
Mil dias e mil noites de clamor
e neve vermelha nos mercados
e fantasmas de fogo e de horror
e ódios de futuros já inválidos
e lenha a arder de antigos móveis
lares em pedaços como as pessoas
que dos mil e quinhentos meninos mortos
recordam apenas as coisas boas
Mil dias e mil noites de teatro
de luta poética de escritores
muitos a quem os dedos já roubaram
para que da morte não sejam delatores
Mil manhãs absurdas
mil noites trágicas
em que turcas culturas mágicas
na velha baixa muçulmana
na biblioteca e no museu
arderam depois de bombardeadas
E se nos buracos das granadas
dos obuses que atravessaram
as paredes de meio metro do Parlamento
viver algum duende mais atento
o povo bósnio espera que lhe guarde
a alma e o talento dos seus músicos
para que, quem lá sobreviva
recorde o que hoje não querem que se viva
há mil dias e há mil noites.
A propósito de uma história de que falei no DN de há uns anos e no livro "da guerra e outros poemas", Neven S., um nacionalista de etnia croata tentou arrasar-nos no fb, a mim e a uma bósnia exilada no Canadá. Já o bloqueámos e participámos dele. No entanto, é assim que pode eclodir, de novo, a guerra: pela negação dos factos.
Segundo esse "facho" que se exibe numa foto em calções, a abraçar tigres bebé, a comunidade judaica de Sarajevo saiu, integralmente, de autocarro de Sarajevo, em 92. Foram todos usufruir de uma bela e luxuosa vida em Telavive.
Estranho imenso que este croata mantenha o mesmo comportamento negativista do chefe muçulmano da comunidade bósnia. Foi uma surpresa, para mim, estarem ainda tão atiçados contra os sefarditas.
Não tenho aqui o DN para reproduzir, mas deixo-vos o poema em que foco a questão. Vivia menos de metade da comunidade judaica de Sarajevo quando lá estive, em 93, creio. Muitos partiram mas outros foram mortos. Negá-lo é admitir nacionalismos e crimes de guerra que era tempo de estarem resolvidos. ´
No dia 26 de agosto de 1995 escrevi:
Há mil dias que Sarajevo chora
e ao mundo implora um gesto seu
como se os fósseis, de repente,
desatassem a viver
e as núvens fizessem de fofo ninho
para os bebés dormirem
e os deuses pudesse comer à nossa mesa
e com as nossas lágrimas na garganta
Há mil dias e mil noites que se ignora
que há espanto na morte
na sorte que Sarajevo implora
em cada minuto que sofre
Aniversário do luto europeu
do frio que esventra campas nos estádios
do sacrifício do povo judeu
que mais uma vez
selou todos os lábios
Muçulmanos, sérvios, croatas
todos clamam estandartes e cores várias
e os últimos judeus de Sarajevo
que falam, quem diria, português
morrem silenciosos como viveram
estigmatizados
sem lugar nem vez
Mil dias e mil noites de clamor
e neve vermelha nos mercados
e fantasmas de fogo e de horror
e ódios de futuros já inválidos
e lenha a arder de antigos móveis
lares em pedaços como as pessoas
que dos mil e quinhentos meninos mortos
recordam apenas as coisas boas
Mil dias e mil noites de teatro
de luta poética de escritores
muitos a quem os dedos já roubaram
para que da morte não sejam delatores
Mil manhãs absurdas
mil noites trágicas
em que turcas culturas mágicas
na velha baixa muçulmana
na biblioteca e no museu
arderam depois de bombardeadas
E se nos buracos das granadas
dos obuses que atravessaram
as paredes de meio metro do Parlamento
viver algum duende mais atento
o povo bósnio espera que lhe guarde
a alma e o talento dos seus músicos
para que, quem lá sobreviva
recorde o que hoje não querem que se viva
há mil dias e há mil noites.
Editoria:
Judeus,
Sarajevo 20 anos
sábado, 7 de abril de 2012
Porque é que ainda tenho um pé?
A Páscoa, para mim, não é feliz. É dolorosa como a Via Sacra. De há uns anos para cá, tirando o domingo que passo com amigos cristãos ortodoxos (valorizam muito a Páscoa que quero contrariar) e as amêndoas ou chocolates que os camaradas de trabalho teimam em partilhar, não compreendo. Lembro, vagamente, de ser um tempo feliz em que levávamos para casa um gaiato de entre os 12 a quem o padre lavava os pés na cerimónia da Missa. Isso passou. Não havia pobres ou não havia mais padres ou gaiatos...havia uma enorme vergonha da partilha de dificuldades. Seria no Natal? Avante...gosto do Natal, por isso baralho as recordações, mas não gosto da Páscoa. Duvido de ressureições milagrosas mas defendo-as como uma esfomeada de milagres. Sou a contradição viva de todas as dúvidas. No dia 9 de abril de 2004, aconteceu-me ter a resposta à questão que coloquei a Deus em 9 de abril de 1994.
Porque é que eu tinha, ainda, o pé?
Os outros... não.

Começou tudo com o bombardeamento do parlamento de Sarajevo e eu, no jardim em frente, com cerca de 15 mutilados em estado de choque.
Das próprias camisas, rasguei pedaços de tecido para, com pauzinhos que vagamente apanhava pelo chão, fazer torniquetes. Interrompi-me várias vezes aos gritos para os AV5 blindados da ONU que passavam na rua. Eles não paravam. Desde a minha chegada que eu sabia que não recolhiam civis.
Parou o novo blindado da BBC e os camaradas dividiram sete dos oito feridos de morte comigo.
Até que parou um bósnio corajoso, numa camioneta de caixa aberta. Já não ajudei a carregar os feridos, estava exausta. Fui depositada com eles no Hospital de Kosovo, em Sarajevo. Mas o sangue não era meu. Eu não tinha pauzinho em nenhum tornozelo, pulso ou antebraço. Chegando, desajudei. Fumei uns 30 cigarros enquanto esperei a discussão com o chefe das urgências...
"- Aquela mulher vai ficar sem os dois braços e um pé....porque lhe corta o outro? E aquela outra, amputa-lhe um terceiro membro?!"
E ele, agastado, pedia-me mais um cigarro e respondia com uma pergunta: "deixo morrer as dezenas que estão a esvair-se em sangue, à minha espera?"
O Pinto Amaral e o Dinis chegaram para a reportagem na morgue (ao lado das urgências) e levaram-me com eles.
À chegada à televisão, comprei um litro de água por 20 dólares. A água mais cara jamais comprada! Venderam-ma num garrafão de plástico serrado ao meio. Levei-a, preciosamente, para o duche da cantina da TV bósnia, onde não havia água há muito tempo. Não sabia se havia de tirar a camisa e esfregar o sangue ou se havia de passar a água por cima. Era uma camisa cor de estanho em seda selvagem (usava-a sob o colete e o casaco militarista), secaria rapidamente e a cor ficaria esbatida...por cima, o colete de mil bolsos que não lavaria. Pendurei-o no varão da cortina, para dar sorte, meio teso meio triste e tudo menos "consorte"...
Depois de despejar água por cima da cabeça, percebi que tinha de tirar a camisa e esfregá-la com algum sabão do corpo. Desisti do sabão e esfreguei a camisa enquanto que, com o pé, "ajudava" a água ensanguentada a chegar ao ralo. Olhei os meus dedos do pé...dedos. Porque é que eu tinha escapado com dedos? Com pé? E os outros a quem estavam a cortar os tendões....ainda?! As explosões abalavam o edifício e já não havia mais ninguém a mandar-me para a cave, para o abrigo.
Depois da última gota do precioso líquido, vesti o colete, agarrei na camisa e no material e botas, para recolher ao escritório da equipa espanhola que me recolheu na Tv bósnia. Não estava ninguém. Estalavam ecos que abalavam as paredes. Encolhi-me num canto para adormecer, nesse dia em que perdera o medo e me aproximara da morte.
Evidentemente, não dormi. Fui para as escadas entre o primeiro andar e a entrada. Estavam lá dois técnicos bósnios, a cantar. Ofereceram-me o grog deles e eu, que não conseguia chorar nem agradecer, cantei-lhes "Os teus olhos, negros negros, são gentios, são gentios da Guiné".
A resposta à minha questão filosófica tardou, mas foi violenta...
Porque é que eu tinha, ainda, o pé?
Os outros... não.

Começou tudo com o bombardeamento do parlamento de Sarajevo e eu, no jardim em frente, com cerca de 15 mutilados em estado de choque.
Das próprias camisas, rasguei pedaços de tecido para, com pauzinhos que vagamente apanhava pelo chão, fazer torniquetes. Interrompi-me várias vezes aos gritos para os AV5 blindados da ONU que passavam na rua. Eles não paravam. Desde a minha chegada que eu sabia que não recolhiam civis.
Parou o novo blindado da BBC e os camaradas dividiram sete dos oito feridos de morte comigo.
Até que parou um bósnio corajoso, numa camioneta de caixa aberta. Já não ajudei a carregar os feridos, estava exausta. Fui depositada com eles no Hospital de Kosovo, em Sarajevo. Mas o sangue não era meu. Eu não tinha pauzinho em nenhum tornozelo, pulso ou antebraço. Chegando, desajudei. Fumei uns 30 cigarros enquanto esperei a discussão com o chefe das urgências...
"- Aquela mulher vai ficar sem os dois braços e um pé....porque lhe corta o outro? E aquela outra, amputa-lhe um terceiro membro?!"
E ele, agastado, pedia-me mais um cigarro e respondia com uma pergunta: "deixo morrer as dezenas que estão a esvair-se em sangue, à minha espera?"
O Pinto Amaral e o Dinis chegaram para a reportagem na morgue (ao lado das urgências) e levaram-me com eles.
À chegada à televisão, comprei um litro de água por 20 dólares. A água mais cara jamais comprada! Venderam-ma num garrafão de plástico serrado ao meio. Levei-a, preciosamente, para o duche da cantina da TV bósnia, onde não havia água há muito tempo. Não sabia se havia de tirar a camisa e esfregar o sangue ou se havia de passar a água por cima. Era uma camisa cor de estanho em seda selvagem (usava-a sob o colete e o casaco militarista), secaria rapidamente e a cor ficaria esbatida...por cima, o colete de mil bolsos que não lavaria. Pendurei-o no varão da cortina, para dar sorte, meio teso meio triste e tudo menos "consorte"...
Depois de despejar água por cima da cabeça, percebi que tinha de tirar a camisa e esfregá-la com algum sabão do corpo. Desisti do sabão e esfreguei a camisa enquanto que, com o pé, "ajudava" a água ensanguentada a chegar ao ralo. Olhei os meus dedos do pé...dedos. Porque é que eu tinha escapado com dedos? Com pé? E os outros a quem estavam a cortar os tendões....ainda?! As explosões abalavam o edifício e já não havia mais ninguém a mandar-me para a cave, para o abrigo.
Depois da última gota do precioso líquido, vesti o colete, agarrei na camisa e no material e botas, para recolher ao escritório da equipa espanhola que me recolheu na Tv bósnia. Não estava ninguém. Estalavam ecos que abalavam as paredes. Encolhi-me num canto para adormecer, nesse dia em que perdera o medo e me aproximara da morte.
Evidentemente, não dormi. Fui para as escadas entre o primeiro andar e a entrada. Estavam lá dois técnicos bósnios, a cantar. Ofereceram-me o grog deles e eu, que não conseguia chorar nem agradecer, cantei-lhes "Os teus olhos, negros negros, são gentios, são gentios da Guiné".
A resposta à minha questão filosófica tardou, mas foi violenta...
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sexta-feira, 6 de abril de 2012
Welcome to Sarajevo
.

Todos os repórteres do mundo queriam avião para Sarajevo. Mas, desde que os sérvios tinham atingido um avião italiano da coligação, os voos de Zagreb para Sarajevo estavam suspensos.
Eu almoçava com dois oficiais portugueses que estavam em representação europeia na troika, em Zagreb, e não conseguiram evitar as exclamações de pesar quando souberam que o Capitão Santana, a chefiar as operações no aeroporto da capital bósnia, fora atingido. Deram-me a dica. Zarpei imediatamente para o aeroporto, que ficava perto. Uma fila de dezenas de jornalistas atropelava-se ao balcão. Do lado direito, bem ao fundo, uma pequena porta entreaberta deixava vislumbrar o movimento na placa. Obriguei o jovem Philipe, o meu fixer (tradutor/guia/arranja tudo) a ficar no átrio e esgueirei-me, fechando a porta atrás de mim.
A uns 800 metros estava o almejado avião alemão de todos os desejos, da NATO.
Nos hangares contíguos do aeroporto, os carregadores de mantimentos da ONU colocavam paletes de rações e toda a espécie de mantimentos nos "diabos". Uns rapazes simpáticos, direitinha aos quais me dirigi, com um sorriso atrevido. Era só eu, com uma mochilita pequenina com medicamentos para doentes de hemodiálise e cigarros para os médicos e para quem precisasse, mala Nikon completa, rolos, pilhas, gravadores.
Pedi-lhes boleia e eles disseram que não. Roubei o boné da ONU da cabeça de um e dirigi-me, em passo apressado, até chegar à frente do gigantesco nariz do avião e olhar o comandante nos olhos. Era uma mulher sozinha, não passava disso e acho que não me deram importância.
Ajoelhei-me e estiquei o dedo a pedir boleia, com ar meio desesperado, meio desafiador.
Já tinha os rapazes todos atrás de mim, com o carregamento junto, mas a boleia estava assegurada.
Com a roupa do corpo e material para uns dias, fui a única jornalista a partir para Sarajevo, no dia em que o glorioso Capitão Santana foi ferido pelos fragmentos de granadas de obus. Pedi informações ao comandante alemão que me disse que o capitão português, entretanto, já tinha retirado os estilhaços e regressado ao posto, que continuava sob ataque da avião sérvia.
Desde o início do voo, a tensão instalou-se na cabine. Antes de entrarmos no perímetro aéreo da cidade, os caças de Belgrado iniciaram uma dança assustadora em nosso redor. Perguntei, ingénua, pelos páraquedas. Ofereci-me, gentil, para os ir buscar.
E o navegador, fleumático, de cachimbo na boca, respondeu-me: nestes cargueiros não temos páraquedas.
Muitos minutos depois, carregadíssimos de probabilidades trágicas, o comandante percebeu e explicou em voz alta que estávamos apenas a ser escoltados e intimidados, para sabermos que seríamos abatidos quando a "Federação" quisesse.
Mal aterrámos reiniciaram-se os bombardeamentos da placa, a descarga debaixo de tiros e a transferência da tripulação para os AV5 blindados da UNPROFOR - United Nations Protection Force, ou Forpronu, conforme os dias...
Mas "como os blindados da ONU não transportam civis" - naquela missão era assim - eu fui deixada debaixo de fogo, aos saltos como um coelho, obrigada a procurar refúgio como um rato.
Pedi aos soldados, que ripostavam, para chamarem o capitão Santana, mas eles não tiveram grande possibilidade de o fazer.
Fui sozinha para a porta do aeroporto que dava para o exterior. Um fotojornalista da CNN, David Rust, escondido atrás de um carro estacionado do lado oposto espreitava, com capacete, e acenava-me. Mas sempre que tentava comunicar comigo, um sniper atirava, ora em direção a mim, ora em direção a ele.
Claro que desistiu e eu regressei para junto dos soldados que gesticulavam, já com o Capitão Santana. Furioso, o herói quis mandar-me de volta, no mesmo avião, para Zagreb.
Eu? Nem pensar. E, graças a Deus, os bombardeamentos invalidavam qualquer tentativa para levantar voo.
Quanto a mim, não fazia ideia onde tinha aterrado. Longe ou perto do centro? Como deslocar-me? Nem mapa tinha!
Sentei-me de pernas cruzadas no chão, no meio daqueles militares tão assustados como eu, de todas as nacionalidades, mas com capacete azul nas cabeças. Lembrei-me, vagamente, de ainda ter um boné, um boné do mesmo azul clarinho que me permitiu a piada, a graça para obter a boleia.
O capitão não teve como me manter refém. Meteu-me mesmo num blindado e aproveitou para ir fazer o relatório à missão na sede da UNPROFOR em Sarajevo. E aí sim, fui largada no corredor da entrada e obrigada a procurar uma saída sozinha.
Procurei a proteção de placas metálicas no exterior, debaixo de fogo. Depois foi fácil. Tinha acabado de entrar no exterior da sede de transmissões da BBC e alguém me deu as boas vindas ao inferno, em inglês: Welcome to Sarajevo.

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Todos os repórteres do mundo queriam avião para Sarajevo. Mas, desde que os sérvios tinham atingido um avião italiano da coligação, os voos de Zagreb para Sarajevo estavam suspensos.
Eu almoçava com dois oficiais portugueses que estavam em representação europeia na troika, em Zagreb, e não conseguiram evitar as exclamações de pesar quando souberam que o Capitão Santana, a chefiar as operações no aeroporto da capital bósnia, fora atingido. Deram-me a dica. Zarpei imediatamente para o aeroporto, que ficava perto. Uma fila de dezenas de jornalistas atropelava-se ao balcão. Do lado direito, bem ao fundo, uma pequena porta entreaberta deixava vislumbrar o movimento na placa. Obriguei o jovem Philipe, o meu fixer (tradutor/guia/arranja tudo) a ficar no átrio e esgueirei-me, fechando a porta atrás de mim.
A uns 800 metros estava o almejado avião alemão de todos os desejos, da NATO.
Nos hangares contíguos do aeroporto, os carregadores de mantimentos da ONU colocavam paletes de rações e toda a espécie de mantimentos nos "diabos". Uns rapazes simpáticos, direitinha aos quais me dirigi, com um sorriso atrevido. Era só eu, com uma mochilita pequenina com medicamentos para doentes de hemodiálise e cigarros para os médicos e para quem precisasse, mala Nikon completa, rolos, pilhas, gravadores.
Pedi-lhes boleia e eles disseram que não. Roubei o boné da ONU da cabeça de um e dirigi-me, em passo apressado, até chegar à frente do gigantesco nariz do avião e olhar o comandante nos olhos. Era uma mulher sozinha, não passava disso e acho que não me deram importância.
Ajoelhei-me e estiquei o dedo a pedir boleia, com ar meio desesperado, meio desafiador.
Já tinha os rapazes todos atrás de mim, com o carregamento junto, mas a boleia estava assegurada.
Com a roupa do corpo e material para uns dias, fui a única jornalista a partir para Sarajevo, no dia em que o glorioso Capitão Santana foi ferido pelos fragmentos de granadas de obus. Pedi informações ao comandante alemão que me disse que o capitão português, entretanto, já tinha retirado os estilhaços e regressado ao posto, que continuava sob ataque da avião sérvia.
Desde o início do voo, a tensão instalou-se na cabine. Antes de entrarmos no perímetro aéreo da cidade, os caças de Belgrado iniciaram uma dança assustadora em nosso redor. Perguntei, ingénua, pelos páraquedas. Ofereci-me, gentil, para os ir buscar.
E o navegador, fleumático, de cachimbo na boca, respondeu-me: nestes cargueiros não temos páraquedas.
Muitos minutos depois, carregadíssimos de probabilidades trágicas, o comandante percebeu e explicou em voz alta que estávamos apenas a ser escoltados e intimidados, para sabermos que seríamos abatidos quando a "Federação" quisesse.
Mal aterrámos reiniciaram-se os bombardeamentos da placa, a descarga debaixo de tiros e a transferência da tripulação para os AV5 blindados da UNPROFOR - United Nations Protection Force, ou Forpronu, conforme os dias...
Mas "como os blindados da ONU não transportam civis" - naquela missão era assim - eu fui deixada debaixo de fogo, aos saltos como um coelho, obrigada a procurar refúgio como um rato.
Pedi aos soldados, que ripostavam, para chamarem o capitão Santana, mas eles não tiveram grande possibilidade de o fazer.
Fui sozinha para a porta do aeroporto que dava para o exterior. Um fotojornalista da CNN, David Rust, escondido atrás de um carro estacionado do lado oposto espreitava, com capacete, e acenava-me. Mas sempre que tentava comunicar comigo, um sniper atirava, ora em direção a mim, ora em direção a ele.
Claro que desistiu e eu regressei para junto dos soldados que gesticulavam, já com o Capitão Santana. Furioso, o herói quis mandar-me de volta, no mesmo avião, para Zagreb.
Eu? Nem pensar. E, graças a Deus, os bombardeamentos invalidavam qualquer tentativa para levantar voo.
Quanto a mim, não fazia ideia onde tinha aterrado. Longe ou perto do centro? Como deslocar-me? Nem mapa tinha!
Sentei-me de pernas cruzadas no chão, no meio daqueles militares tão assustados como eu, de todas as nacionalidades, mas com capacete azul nas cabeças. Lembrei-me, vagamente, de ainda ter um boné, um boné do mesmo azul clarinho que me permitiu a piada, a graça para obter a boleia.
O capitão não teve como me manter refém. Meteu-me mesmo num blindado e aproveitou para ir fazer o relatório à missão na sede da UNPROFOR em Sarajevo. E aí sim, fui largada no corredor da entrada e obrigada a procurar uma saída sozinha.
Procurei a proteção de placas metálicas no exterior, debaixo de fogo. Depois foi fácil. Tinha acabado de entrar no exterior da sede de transmissões da BBC e alguém me deu as boas vindas ao inferno, em inglês: Welcome to Sarajevo.

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quinta-feira, 5 de abril de 2012
O francês que, em Saravejo, conhecia o Mendonça do Dakar

O jovem francês, do qual tenho o nome escrito nos diários de guerra, mas não me lembro, chegou a Sarajevo com um jipe blindado para entregar à BBC. Trazia-o da Alemanha e tinha de regressar com o velho jipe inglês esburacado, não blindado, que tinha estado ao uso até então.
Nessa noite em que chegou, juntou-se a nós na sala de jantar do Holiday Inn de Sarajevo, na pausa das explosões da noite, que servia para programar as saídas do dia seguinte e partilhar viaturas e outros meios.

Quando percebeu que eu era portuguesa perguntou-me se conhecia o Zé, um motard genial com quem tinha feito o Dakar e que, depois de assaltado, foi num camião de boleia e fazia reportagens para um jornal diário a dizer bem dos ladrões tuaregues. Essa era fácil! Um dos meus Heróis sem Tempo? Claro que era o Mendonça, que estoirou com os joelhos em vários Dakar (antes de passar ao parapente) e sempre achou que os tuaregues tinham sido muito simpáticos em deixar-lhe uma parabólica e um telefone. Foi o início de uma bela que o "Público" aproveitou, fazendo do aventureiro o escriba de serviço.
E agora, em Sarajevo, eu conhecia outro herói da mesma craveira...
Acabei por partir de Sarajevo com ele, muito tempo depois, no jipe esburacado da BBC. Depois das posições dos chetnick, tínhamos mais umas balas crivadas no tablier. Quando passámos o último check point, fotografámo-nos mutuamente, para provarmos a nós mesmos que estávamos inteiros, para sentirmos que estávamos vivos. Ele deixou-me em Split e apanhei uma boleia militar para Zagreb. Há quase duas décadas.
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