Há mil dias que Sarajevo chora
e ao mundo implora um gesto seu.
Como se os fósseis, de repente, desatassem a viver
e as nuvens fizessem de fofo ninho para os bebés dormirem
e os deuses pudessem comer
à nossa mesa
e com as nossas lágrimas na garganta.
Há mil dias e mil noites que se ignora
que há espanto na morte
na sorte que Sarajevo implora
em cada minuto que sofre.
Aniversário do luto europeu
do frio que esventra campas nos estádios
do sacrifício do povo judeu que, mais uma vez, selou todos os lábios.
Muçulmanos, sérvios, croatas
todos clamam estandartes e dores várias
e os últimos judeus de Sarajevo
que falam (quem diria?) português
morrem como viveram
estigmatizados, sem lugar nem vez.
Mil dias e mil noites de clamor
e neve vermelha nos mercados
e fantasmas de fogo e de horror
e ódios a futuros já inválidos
e lenha a arder dos antigos móveis
lares em pedaços, como as pessoas
que dos mil e quinhentos meninos mortos
recordam apenas as coisas boas.
Mil dias e mil noites de teatro
de luta poética de escritores
muitos a quem os dedos já roubaram
para que da morte não sejam delatores.
Mil manhãs absurdas
mil noites trágicas
em que turcas culturas mágicas
na velha baixa muçulmana
na biblioteca e no museu
arderam depois de bombardeadas.
E se nos buracos dos obuses
que atravessaram
as paredes de meio metro do Parlamento
viver algum duende mais atento
o povo bósnio espera que lhe guarde
a alma e o talento dos seus músicos
para que, quem lá sobreviva
recorde o que hoje não se quer que viva
há 1000 dias e mil noites
escrito em 26 de janeiro de 1995
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Rako Mladic . a ratazana convencida
A detenção do líder militar dos sérvios bósnios, acusado de genocídio e de ter feito o cerco de 43 meses a Sarajevo, durante a guerra na Bósnia de 1992 a 1995, e o massacre de Srebrenica em que foram executados cerca de 8000 homens e rapazes muçulmanos bósnios, em 1995, era esperada há vários anos, e era considerada uma condição essencial para uma futura adesão da Sérvia à União Europeia. Há 16 anos que Ratko Mladic era procurado.. e há 16 anos que as autoridades fingiam desconhecer o paradeiro do maior símbolo dos nacionalistas do país. A rede tecida à sua volta, uma rede de apoios policiais e de segurança militar, envolvia, permanentente, 70 a 90 pessoas, dependendo das circunstâncias. Mladic não vivia em fuga; vivia protegido. Quando havia uma entrada no território guardado - mais no tempo de Carla Del Ponte e das buscas que também se faziam por Karadic (que aguarda o amigo na prisão do Tribunal de Haia), a mensagem antecedia a vinda dos capacetes azuis como se os pombos-correio tivessem sido largados em plena floresta, em todas as aldeias, quartéis e sedes da polícia.
O cerco a Sarajevo fez cerca de 12 mil mortos. Eu vi, eu estava lá.
Eu fugia como um coelho (desde a guerra da Croácia) a cada reflexo de metal ao sol e os evólucros sempre se cravaram a uns centímetros de mim. Na Croácia eu, e todos os camaradas de profissão, valíamos 500 marcos; as crianças, 350; e os civis adultos 150 ou 200...depedendo do militar que pagava. Na Bósnia não foi assim. Mladic convenceu os nacionalistas de que era preciso fazer bons fins de semana de tiro ao alvo, em Sarajevo, para as matanças do exército ficarem em segredo, para a fome da população não ser tida em conta, para a violação das mulheres e raparigas muçulmanas continuar abrangida por essa 'omertá' dos assassinos e para os sérvios consolidarem a sua nação.
Tremíamos todos como meninos ao frio sempre que tínhamos de sair em reportagem. Obrigavam-nos a tapar as matrículas dos veículos com cartões onde se inscrevia PRESS TV ou PRESS apenas e percebíamos que estavam a seguir os nossos movimentos na garagem exterior da televisão enquanto pendurávamos as placas. Em dia bom não morria nenhum de nós. No dia da minha chegada foi dia de ataque à virilha de um dos correspondentes da BBC que caiu 200 metros à minha frente.
Mladic é o "homem" que deu a ordem de razia.
Desrespeitava completamente os acordos entre as quatro partes (sim, além da sérvia, da muçulmana e da croata/bósnia havia a UNPROFOM - United Nations Protection Force, que não servia para coisa nenhuma) que vigoravam durante o cerco, Por exemplo, quando cheguei (depois de muita peripécia e morte à minha volta) fui para o Holliday Inn, quarto 25. Entrei pela cozinha debaixo de fogo. Avisaram-me logo que os voluntários das ONG's internacionais, os guias, os escritores e os jornalistas estrangeiros só ocupavam até ao segundo andar porque, para cima, éramos alvo de bombardeamentos.
Quando o meu quarto foi atingido por um obus (eu estava na "festa" (bar e copos) de despedida dos italianos e de um grego percebi que, durante a noite, os nacionalistas subiam as escadas em silêmcio e iam disparar dos outros andares. O que recebíamos de volta eram apenas respostas.
Todos os soldados se embebedavam com grog, daí ser muito difícil fazer com que algum largasse a arma para dialogar.
Eram os homens de Mladic, homens de mão e assassinos. Imaginem, um a um, todos os rapazinhos de Srebreniza a descerem para a vala onde já estavam os corpos dos pais.
A Europa que hoje se regozija não viu, estava distraída.
O cerco a Sarajevo fez cerca de 12 mil mortos. Eu vi, eu estava lá.
Eu fugia como um coelho (desde a guerra da Croácia) a cada reflexo de metal ao sol e os evólucros sempre se cravaram a uns centímetros de mim. Na Croácia eu, e todos os camaradas de profissão, valíamos 500 marcos; as crianças, 350; e os civis adultos 150 ou 200...depedendo do militar que pagava. Na Bósnia não foi assim. Mladic convenceu os nacionalistas de que era preciso fazer bons fins de semana de tiro ao alvo, em Sarajevo, para as matanças do exército ficarem em segredo, para a fome da população não ser tida em conta, para a violação das mulheres e raparigas muçulmanas continuar abrangida por essa 'omertá' dos assassinos e para os sérvios consolidarem a sua nação.
Tremíamos todos como meninos ao frio sempre que tínhamos de sair em reportagem. Obrigavam-nos a tapar as matrículas dos veículos com cartões onde se inscrevia PRESS TV ou PRESS apenas e percebíamos que estavam a seguir os nossos movimentos na garagem exterior da televisão enquanto pendurávamos as placas. Em dia bom não morria nenhum de nós. No dia da minha chegada foi dia de ataque à virilha de um dos correspondentes da BBC que caiu 200 metros à minha frente.
Mladic é o "homem" que deu a ordem de razia.
Desrespeitava completamente os acordos entre as quatro partes (sim, além da sérvia, da muçulmana e da croata/bósnia havia a UNPROFOM - United Nations Protection Force, que não servia para coisa nenhuma) que vigoravam durante o cerco, Por exemplo, quando cheguei (depois de muita peripécia e morte à minha volta) fui para o Holliday Inn, quarto 25. Entrei pela cozinha debaixo de fogo. Avisaram-me logo que os voluntários das ONG's internacionais, os guias, os escritores e os jornalistas estrangeiros só ocupavam até ao segundo andar porque, para cima, éramos alvo de bombardeamentos.
Quando o meu quarto foi atingido por um obus (eu estava na "festa" (bar e copos) de despedida dos italianos e de um grego percebi que, durante a noite, os nacionalistas subiam as escadas em silêmcio e iam disparar dos outros andares. O que recebíamos de volta eram apenas respostas.
Todos os soldados se embebedavam com grog, daí ser muito difícil fazer com que algum largasse a arma para dialogar.
Eram os homens de Mladic, homens de mão e assassinos. Imaginem, um a um, todos os rapazinhos de Srebreniza a descerem para a vala onde já estavam os corpos dos pais.
A Europa que hoje se regozija não viu, estava distraída.
Editoria:
hipocrisia da política,
Mladic,
Sarajevo,
Sérvia,
UE
quinta-feira, 19 de maio de 2011
França insiste na proteção de arguido VIP
A França insiste no debate sobre a possível orquestração da execução pública de Dominique Strauss-Khan por parte da justiça e dos Media americanos.
O advogado de Strauss Kahn ameaça denunciar os Media franceses que divulgaram imagens do arguido algemado.
Dominique de Leusse, advogado do arguido:
"- Se houve infração, há possibilidade de proceder judicialmente. Vamos verificar se foi registada ou não a ocorrência em 48 horas ou durante os próximos três dias".
Em nome da presunção de inocência, é proibido, em França, mostrar a imagem de suspeitos algemados ou numa posição que possa ser considerada degradante.
A lei mudou a 15 de junho de 2000 sob pressão da socialista Elizabeth Guigou, antiga ministra de Justiça.
Para Guigou, o caso Strauss-Khan é resumido a um assunto político:
"- Acho que é muito importante sublinhar que tanto o promotor como os juízes são eleitos e aspiram à reeleição, seja nos seus postos ou nos de outros. Não podem ser indiferentes ao facto de as câmaras de todo mundo estarem aí a mostrar tudo o que está a acontecer"
O promotor Cyrus Vance, conhecido pela luta contra a criminalidade dos colarinhos brancos, segundo os franceses, deixou as câmaras registarem os primeiros planos de um homem algemado, acusado à partida pelos jornais americanos.
Nada anormal nos Estados Unidos. Strauss Khan foi submetido à mesma sorte que outros antecessores célebres no banco dos réus: Bernard Madoff e Michael Jackson também foram mostrados na praça pública com algemas nas mãos e pés. O "Perp walk", criado por Rudolf Guiliani nos anos 80, para os ricos e célebres. serve mesmo para mostrar a pena de quem alegadamente perpeta o crime.
Será que os procuradores vão exibir o arguido quando ele se apresentar ao grande júri na sexta-feira?
Nada parece indicar que o tratamento das figuras públicas acusadas de abuso seja aquele que os franceses preferem.
O advogado de Strauss Kahn ameaça denunciar os Media franceses que divulgaram imagens do arguido algemado.
Dominique de Leusse, advogado do arguido:
"- Se houve infração, há possibilidade de proceder judicialmente. Vamos verificar se foi registada ou não a ocorrência em 48 horas ou durante os próximos três dias".
Em nome da presunção de inocência, é proibido, em França, mostrar a imagem de suspeitos algemados ou numa posição que possa ser considerada degradante.
A lei mudou a 15 de junho de 2000 sob pressão da socialista Elizabeth Guigou, antiga ministra de Justiça.
Para Guigou, o caso Strauss-Khan é resumido a um assunto político:
"- Acho que é muito importante sublinhar que tanto o promotor como os juízes são eleitos e aspiram à reeleição, seja nos seus postos ou nos de outros. Não podem ser indiferentes ao facto de as câmaras de todo mundo estarem aí a mostrar tudo o que está a acontecer"
O promotor Cyrus Vance, conhecido pela luta contra a criminalidade dos colarinhos brancos, segundo os franceses, deixou as câmaras registarem os primeiros planos de um homem algemado, acusado à partida pelos jornais americanos.
Nada anormal nos Estados Unidos. Strauss Khan foi submetido à mesma sorte que outros antecessores célebres no banco dos réus: Bernard Madoff e Michael Jackson também foram mostrados na praça pública com algemas nas mãos e pés. O "Perp walk", criado por Rudolf Guiliani nos anos 80, para os ricos e célebres. serve mesmo para mostrar a pena de quem alegadamente perpeta o crime.
Será que os procuradores vão exibir o arguido quando ele se apresentar ao grande júri na sexta-feira?
Nada parece indicar que o tratamento das figuras públicas acusadas de abuso seja aquele que os franceses preferem.
Editoria:
FMI,
justiça,
Strauss-Khan
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Europa enfrenta dramática crise humanitária
veja na euronews
O êxodo de milhares de africanos subsarianos, que antes era travado na Líbia por um acordo com a Itália, atingiu proporções dramáticas. Os barcos que saiem da Líbia não aguentam tantos passageiros de uma vez e acabam todos com problemas técnicos ou falta de combustível em alto mar. Mesmo quando a polícia marítima italiana e os voluntários acorrem, nem sempre conseguem salvar todos os imigrantes, como foi o caso do barco que bateu contra as rochas há dois dias.
O Alto Comissariado da ONU para os refugiados calcula que 800 pessoas terão desaparecido no Mar Mediterrâneo desde o dia 25 de Março, depois da escala na Líbia.
Uma realidade dramática que teve mais destaque com a alegada falta de assistência da NATO a uma embarcação que esteve à deriva durante 16 dias.
A NATO desmentiu a acusação, publicada pelo The Guardian, segundo a qual 61 imigrantes foram deixados à fome e à sede, mesmo depois da passagem de um helicóptero e do porta-aviões francês Charles de Gaulle.
E a obrigação de prestar socorro abrange todas as embarcações, como lembra a porta voz do Alto Comissariado da ONU:
“Estamos a pedir aos navios, comerciais e militares, para estarem especialmente vigilantes a todos estes barcos de refugiados
O êxodo de milhares de africanos subsarianos, que antes era travado na Líbia por um acordo com a Itália, atingiu proporções dramáticas. Os barcos que saiem da Líbia não aguentam tantos passageiros de uma vez e acabam todos com problemas técnicos ou falta de combustível em alto mar. Mesmo quando a polícia marítima italiana e os voluntários acorrem, nem sempre conseguem salvar todos os imigrantes, como foi o caso do barco que bateu contra as rochas há dois dias.
O Alto Comissariado da ONU para os refugiados calcula que 800 pessoas terão desaparecido no Mar Mediterrâneo desde o dia 25 de Março, depois da escala na Líbia.
Uma realidade dramática que teve mais destaque com a alegada falta de assistência da NATO a uma embarcação que esteve à deriva durante 16 dias.
A NATO desmentiu a acusação, publicada pelo The Guardian, segundo a qual 61 imigrantes foram deixados à fome e à sede, mesmo depois da passagem de um helicóptero e do porta-aviões francês Charles de Gaulle.
E a obrigação de prestar socorro abrange todas as embarcações, como lembra a porta voz do Alto Comissariado da ONU:
“Estamos a pedir aos navios, comerciais e militares, para estarem especialmente vigilantes a todos estes barcos de refugiados
Editoria:
tragédia
Mediterrâneoimigraçãoeuropa
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Porta-aviões francês ignora SOS de náufragos
Hoje lutei contra a perda de voz ao fazer esta notícia
Como se pode ignorar o apelo de um grupo de náufragos desesperados em busca de liberdade e de pão? Que Europa é esta? Não é minha, decerto...já faltou mais para pedir asilo a um qualquer país africano...
Como se pode ignorar o apelo de um grupo de náufragos desesperados em busca de liberdade e de pão? Que Europa é esta? Não é minha, decerto...já faltou mais para pedir asilo a um qualquer país africano...
quinta-feira, 5 de maio de 2011
a verdade tortuosa sobre o que corroi Patricia
Quantas vezes pensámos que poderíamos não regressar à cama? Tivémos todos a hipótese de ter sempre cama? Sabemos o frio ou a fome? Temos lacunas na humanidade que nos move?
Ontem eu julgava que os mortos se iam de acidente. bala, ciumeira. morte matada...hoje, sei que há um faz de conta que estabelecemos com um bicho estranho e mau. resistente a tudo quanto é raio, um horror... no centro está sempre um de nós que nos transmite a exacta proporção do horror a conta gotas.Maldita coisa.
Ontem eu julgava que os mortos se iam de acidente. bala, ciumeira. morte matada...hoje, sei que há um faz de conta que estabelecemos com um bicho estranho e mau. resistente a tudo quanto é raio, um horror... no centro está sempre um de nós que nos transmite a exacta proporção do horror a conta gotas.Maldita coisa.
terça-feira, 3 de maio de 2011
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Luta contra o terrorismo: Paquistão com posição dúbia
de MJC com Miguel Sardo para a euronews
Em 2001, os americanos tinham a certeza de que Osama bin Laden seria encontrado nas profundezas do sistema labiríntico de grutas de Tora Bora, no Afeganistão.
Mas o líder da Al Qaida foi executado no outro lado da fronteira, no Paquistão.
Foi descoberto numa cidade tranquila a menos de duas horas de carro de Islamabad. No caso de a execução ter sido feita com o conhecimento dos serviços secretos paquistaneses é como se o Estado tivesse delegado a Washington a operação.
Também no Paquistão, em Rawalpindi, já tinha sido caprurado, há 8 anos, Khalid Sheikh Mohammed, o alegado responsável pelos atentados do 11 setembro.
Há um ano, o Mullah Biradhar, um dos principais comandantes dos Talibans e membro da Al Qaida, foi surpreendido em Karachi.
Os documentos secretos filtrados pela Wikileaks revelam que os serviços secretos paquistaneses estavam na lista norteamericana de organizações próximas da Al Qaida.
E apesar de Islamabad negar em reiteradas ocasiões qualquer vínculo à rede, as dúvidas em Washington persistem.
Tahir Ameen, , analista internacional:
"É possível que os serviços secretos paquistaneses pensem salvar a face com esta captura e morte de Bin Laden e melhorem as relações com os Estados Unidos".
As operações dos agentes da CIA no Paquistão, nos últimos meses, minaram as relações entre os dois países, apesar de uma promessa de apoio económico da secretária de Estado, Hillary Clinton.
Islamabad ordenou que todos os agentes dos EUA abandonem o território .. mesmo que o apoio de Washington seja vital para o exército paquistanês que luta contra os grupos extremistas na fronteira afegã.
Há muitas críticas a nível interno sobre a operação dos Estados Unidos para capturar Bin Laden.
Murtaza GHULAM, advogado:
"As forças estrangeiras não devem ser autorizadas a entrar no território paquistanês. Se um país realiza uma operação no interior do território, viola a nossa soberania. Não devemos dar autorização a ninguém para isso."
O crescente número de mortes de civis em ataques com drones (aviões não tripulados), como aconteceu na região paquistanesa da fronteira, alimenta um sentimento anti-americano.
A captura de Bin Laden pode ser encarada como uma concessão aos Estados Unidos, o que vai icendiar os ânimos nos grupos islamistas paquistaneses.
Bin Laden: troféu ou martir?
MJC com Beatriz Beiras para a euronews
A captura e morte do homem mais procurado do mundo é, sem dúvida, uma importante vitória política para o presidente norte-americano. Mas, ao mesmo tempo, pode converter-se numa faca de dois gumes. Existe o risco de Osama Bin Laden se converter num mártir...
A verdade é que, desde 2005, a Al Qaida não conseguiu operar de novo no ocidente. Tudo indica que a rede terrrorista está muito debilitada, tanto do ponto de vista operacional como ideológico.
As revoluções que defendem a democracia no mundo árabe recusam os tiranos e opõem-se ao terrorismo. Em vez do governo islâmico que persegue AL Qaida, a população desses países defende uma uma sociedade civil e moderna que implicitamente esmague as aspirações dos extremistas.
No entanto, a rede terrorista continua a ser uma ameaça. Principalmente por causa dos muitos grupos regionais que proliferam por todo mundo árabe. Em 2004, apareceu o ramo iraquiano. Em 2007, o do Magreb Islâmico. E em 2009, o da península arábica.
A ramificação iemenita é a mais ativa dessa nebulosa terrorista, apesar de não atuar desde o início dos protestos para depor o presidente Abdullah Saleh. Mesmo assim, os Estados Unidos, consideram que é, de todos, o grupo mais perigoso.
Tentou atuar em várias ocasiões e é provável que continue a tentar. Na memória recente estão duas bombas escondidas em impressoras enviadas do Iémen com destino aos Estados Unidos que, felizmente, foram intercetadas no Dubai e no Reino Unido.
Em 2001, os americanos tinham a certeza de que Osama bin Laden seria encontrado nas profundezas do sistema labiríntico de grutas de Tora Bora, no Afeganistão.
Mas o líder da Al Qaida foi executado no outro lado da fronteira, no Paquistão.
Foi descoberto numa cidade tranquila a menos de duas horas de carro de Islamabad. No caso de a execução ter sido feita com o conhecimento dos serviços secretos paquistaneses é como se o Estado tivesse delegado a Washington a operação.
Também no Paquistão, em Rawalpindi, já tinha sido caprurado, há 8 anos, Khalid Sheikh Mohammed, o alegado responsável pelos atentados do 11 setembro.
Há um ano, o Mullah Biradhar, um dos principais comandantes dos Talibans e membro da Al Qaida, foi surpreendido em Karachi.
Os documentos secretos filtrados pela Wikileaks revelam que os serviços secretos paquistaneses estavam na lista norteamericana de organizações próximas da Al Qaida.
E apesar de Islamabad negar em reiteradas ocasiões qualquer vínculo à rede, as dúvidas em Washington persistem.
Tahir Ameen, , analista internacional:
"É possível que os serviços secretos paquistaneses pensem salvar a face com esta captura e morte de Bin Laden e melhorem as relações com os Estados Unidos".
As operações dos agentes da CIA no Paquistão, nos últimos meses, minaram as relações entre os dois países, apesar de uma promessa de apoio económico da secretária de Estado, Hillary Clinton.
Islamabad ordenou que todos os agentes dos EUA abandonem o território .. mesmo que o apoio de Washington seja vital para o exército paquistanês que luta contra os grupos extremistas na fronteira afegã.
Há muitas críticas a nível interno sobre a operação dos Estados Unidos para capturar Bin Laden.
Murtaza GHULAM, advogado:
"As forças estrangeiras não devem ser autorizadas a entrar no território paquistanês. Se um país realiza uma operação no interior do território, viola a nossa soberania. Não devemos dar autorização a ninguém para isso."
O crescente número de mortes de civis em ataques com drones (aviões não tripulados), como aconteceu na região paquistanesa da fronteira, alimenta um sentimento anti-americano.
A captura de Bin Laden pode ser encarada como uma concessão aos Estados Unidos, o que vai icendiar os ânimos nos grupos islamistas paquistaneses.
Bin Laden: troféu ou martir?
MJC com Beatriz Beiras para a euronews
A captura e morte do homem mais procurado do mundo é, sem dúvida, uma importante vitória política para o presidente norte-americano. Mas, ao mesmo tempo, pode converter-se numa faca de dois gumes. Existe o risco de Osama Bin Laden se converter num mártir...
A verdade é que, desde 2005, a Al Qaida não conseguiu operar de novo no ocidente. Tudo indica que a rede terrrorista está muito debilitada, tanto do ponto de vista operacional como ideológico.
As revoluções que defendem a democracia no mundo árabe recusam os tiranos e opõem-se ao terrorismo. Em vez do governo islâmico que persegue AL Qaida, a população desses países defende uma uma sociedade civil e moderna que implicitamente esmague as aspirações dos extremistas.
No entanto, a rede terrorista continua a ser uma ameaça. Principalmente por causa dos muitos grupos regionais que proliferam por todo mundo árabe. Em 2004, apareceu o ramo iraquiano. Em 2007, o do Magreb Islâmico. E em 2009, o da península arábica.
A ramificação iemenita é a mais ativa dessa nebulosa terrorista, apesar de não atuar desde o início dos protestos para depor o presidente Abdullah Saleh. Mesmo assim, os Estados Unidos, consideram que é, de todos, o grupo mais perigoso.
Tentou atuar em várias ocasiões e é provável que continue a tentar. Na memória recente estão duas bombas escondidas em impressoras enviadas do Iémen com destino aos Estados Unidos que, felizmente, foram intercetadas no Dubai e no Reino Unido.
Editoria:
Al Qaida,
Bin Laden,
Paquistão,
terrorismo
domingo, 1 de maio de 2011
Poetas, White sobre Sophia
Eduarto White in O Manual das Mãos:
"O poeta tem lebres nos dedos quando escreve e curandeiros dentro da boca, a fumar rapé e a tossir muito por entre os versos. Geralmente interiorizado, o poeta consulta não os seus falecidos que são ele e que toda a gente vê e tenta matar uma segunda vez. Um poeta está literalmente nu se escreve e vestido quando ama. Desabotoada a nudez dos seus papéis, o poeta é todo uma longa lapiseira a rebolar-se pela lisura da escrita ou, então, quando se veste, gosta da tontura da profunda escuridão onde mergulha".
Ainda White, o escritor que foi considerado, em 2001, a figura literária do ano em Moçambique, na mesma obra, sobre Sophia de Mello Breyner:
"Que líquida poesia a de Sophia, que renda tão pura, tão indivisível. Búzio com ondas dentro e lábios falando. Ali, os nódulos dos dedos empurram a história mítica dos gregos, as liras que dos poemas dedilham a música, a harpa que nesta mulher se insinua. Sophia com a sua luz tão alva. Jardim boreal, pão e trigo, algodão e delicadeza. Casa com a cordialidade na chaminé, fogão ilustre da nobreza, madeira calçando o pé, broa, sardinha e água-pé".
"O poeta tem lebres nos dedos quando escreve e curandeiros dentro da boca, a fumar rapé e a tossir muito por entre os versos. Geralmente interiorizado, o poeta consulta não os seus falecidos que são ele e que toda a gente vê e tenta matar uma segunda vez. Um poeta está literalmente nu se escreve e vestido quando ama. Desabotoada a nudez dos seus papéis, o poeta é todo uma longa lapiseira a rebolar-se pela lisura da escrita ou, então, quando se veste, gosta da tontura da profunda escuridão onde mergulha".
Ainda White, o escritor que foi considerado, em 2001, a figura literária do ano em Moçambique, na mesma obra, sobre Sophia de Mello Breyner:
"Que líquida poesia a de Sophia, que renda tão pura, tão indivisível. Búzio com ondas dentro e lábios falando. Ali, os nódulos dos dedos empurram a história mítica dos gregos, as liras que dos poemas dedilham a música, a harpa que nesta mulher se insinua. Sophia com a sua luz tão alva. Jardim boreal, pão e trigo, algodão e delicadeza. Casa com a cordialidade na chaminé, fogão ilustre da nobreza, madeira calçando o pé, broa, sardinha e água-pé".
Editoria:
Eduardo White,
poetas,
Sophia
sexta-feira, 29 de abril de 2011
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